Impressões sobre a quinta temporada de Orange Is The New Black

Quando Orange Is The New Black estreou na Netflix, a proposta da série era contar a história da verdadeira Piper, narrada no livro de memórias escrito pela própria, só que com incrementos ficcionais a fim de tornar seus relatos do tempo de cárcere ainda mais interessantes. O protagonismo, portanto, era pra ser dela, do início ao fim.

Se tratava de uma série sobre uma mulher branca de classe média, que foi condenada a cumprir pena numa penitenciária feminina por um crime que cometeu na juventude. Conforme os episódios passariam, o público conseguiria entender, através de flashbacks, o que a levou a perder o rumo e cair atrás das grades, ao mesmo tempo que acompanhava sua trajetória no presídio.

À princípio, deixar o foco nela era uma forma de conquistar a audiência, pois a Piper representava o típico assinante da Netflix. Se fosse uma série sobre presidiárias na qual a protagonista não fosse alguém culta, com uma condição financeira razoavelmente boa, educada e que sabe falar, andar e se portar bem, talvez o público não se interessasse por OITNB. Ou pelo menos, correria risco da série ser rejeitada. Afinal, desde quando a classe média se interessaria por presidiárias? A partir do momento que se vê refletida nelas.

Dessa forma, a Piper passaria a ser o cartão de entrada entre o assinante da Netflix e o universo penitenciário. Ela era a isca que atrairia o público para conhecer uma realidade que nunca os pertenceria, até se verem representados nela através de Piper Chapman. A Piper poderia ser facilmente alguém que conheço, alguém que você conhece ou quem sabe, nós mesmos.

E se fosse eu? E se fosse eu por detrás daquele macacão laranja, cheia de medo, tentando me adaptar num ambiente que não fui criada para me acostumar? Como eu sobreviveria à convivência com mulheres tão diferentes de mim e por vezes, assustadoras? E se fôssemos nós na pele de Chapman? Já se imaginou fazendo estadia numa penitenciária feminina? Se não, depois de OITNB, você será forçado a isso.

Só que com tempo, as outras personagens foram encontrando seu espaço, convencendo o telespectador de que não eram esses monstros que o preconceito nos fazia enxergar. Até que chegou o momento que não tinha mais necessidade de usar a Piper para fazer a intermediação entre as duas realidades.

O que antes era vilãnizado, passou ser apenas humano. E o que era chocante e repulsivo se tornou natural e até mesmo, cômico. Os flashbacks contando o passado de cada uma ajudavam a tornar tudo ainda mais compreensível. Elas estavam certas ou erradas? Não importa. Quem seria capaz de julgá-las?

Os flashbacks da protagonista foram diminuindo, ou melhor, foram permitindo que coadjuvantes achassem seus protagonismos também. A série deixou de centrar na Piper para deixar que as outras também se destaquem. O protagonismo deixou de ser loiro, branco, de olhos azuis, para ser negro, latino, asiático, trans, tudo o que preenchesse aquele universo. Na quarta temporada, não teve nenhum flashback da Piper e na quinta apenas um.

Impressões sobre a quinta temporada de Orange Is The New Black

Ao mesmo tempo, Taystee foi ganhando notoriedade, mostrando que era muito mais do que uma simples coadjuvante que só estava lá de enfeite pra ajudar a contar a história de Piper. Ao contrário de Chapman, ela nunca teve uma família estruturada e nem condições de seguir uma vida honesta.

Rejeitada pela mãe, cresceu em abrigos, não pôde estudar apesar de seu esforço e inteligência nata, começou a trabalhar desde cedo para ganhar um lugar ao sol, mas nunca teve muita oportunidade. Achou no crime uma maneira de sobreviver em meio à miséria que vivia. E é ela que está se tornando a nova protagonista de Orange Is The New Black.

Com a morte de Poussey na última temporada, a personagem se transformou da menina responsável pelos melhores momentos de alívio cômico da série, junto com o resto do núcleo das negras, e que sempre tinha uma piada sarcástica na ponta da língua, para uma mulher consciente de seus direitos e disposta a lutar por um pouco de justiça para ela, para as outras, por Poussey e pelo próprio mundo.

Ela que comanda as negociações entre Caputto, Figueroa, a GC e o governador. Não é Piper, Alex, Nicky, Red, Morello; é ela. Uma negra a quem nunca foi permitido o direito universal à educação. Existe forma melhor de explicar o que é representatividade?

Ao contrário das primeiras temporadas nas quais era cada uma por si e no máximo, cada uma com sua tribo, a partir da 4ª temporada as detentas começaram a perceber que só conseguiriam mudar alguma coisa dentro do sistema carcerário se houvesse união entre elas, pois quanto mais divididas estivessem, melhor seria para as autoridades e principalmente, para Piscatella. E assim terminou a quarta e deu início a quinta temporada.

De certa forma, a morte de Poussey foi importante para verem que independente das intrigas e diferenças, estão todas no mesmo barco. Todas estão suscetíveis a terem o mesmo destino de Poussey caso nada mude lá dentro. Por isso precisam deixar o que as afasta de lado e focar no que as aproxima, isto é, as grades de Litchfield.

A 5ª temporada foi bem mais leve que a anterior, apesar da quantidade de acontecimentos por episódio e de ser tão crucial para o desenrolar da trama quanto a outra.

A questão da “leveza” (com muitas aspas mesmo) foi até alvo de algumas críticas na internet que a associam a uma tentativa de romantização da vida na cadeia. Porém, eu discordo, pois desde o início OITNB se propôs a ser uma série tragicômica, com alguns momentos de alívio cômico para o público dar uma relaxada de toda densidade que havia nela (se é que é possível).

Só que, obviamente, não tinha como fugir do drama e da violência, afinal, a série se passa num presídio feminino. Num presídio! E se os flashbacks às vezes serviam para sairmos um pouco daquele ambiente pesado, por vezes nos faziam lembrar porque aquelas mulheres se tornaram criminosas, após assistirmos suas histórias de vida ainda mais pesadas que a própria cadeia. Então, por mais que tenha momentos que nos façam rir, como a cena do guarda fazendo strip-tease ou as falas da Cindy, não se engane; você não está assistindo uma série de comédia.

Essa temporada foi mais ágil que as outras, com muitos momentos de ação, dando a impressão de ter sido mais corrida. Exatamente por isso, foi fácil maratoná-la. A cada fim de episódio, nos deixava curiosos pra saber o que aconteceria no próximo conforme o nível de tensão aumentava.

O que me lembrou muito o ritmo de narrativa da primeira temporada, já que da segunda em diante o roteiro era feito de forma a nos fazer saborear um episódio por dia, aos poucos, sem excessos.

Essa mudança na quinta (ou seria retorno às origens?) se deve ao próprio enredo da temporada, que se propõe a acompanhar os três dias de rebelião em Litchfield. São 13 episódios, mas na verdade tudo aconteceu em apenas 3 dias. Por isso é compreensível o aumento de velocidade na trama.

Foi interessante ver a inversão de papéis entre detentas e guardas. Deu pra sentir do outro lado da tela o gostinho de justiça (pra não dizer vingança, como boa escorpiana que sou) ao ver todos aqueles guardas tendo que obedecê-las depois de anos abusando do poder como autoridade.

Aliás, se eu pudesse resumir a quinta temporada em apenas uma frase, seria “os humilhados serão exaltados”, sem nem precisar pensar muito. Independente das consequências, elas tiveram seu momento de glória. E isso já vale muita coisa.

Outro ponto que achei bem planejado dessa temporada foi a morte de Piscatella. Ele odiava tanto a Red e no final das contas, ela que o libertou, antes dele ser morto pelos próprios policiais. Quem imaginaria que no fim ele teria o mesmo destino de Poussey? Olha a ironia nisso. E por falar na russa, ela provou com sua atitude que nunca é tarde demais para recuperar a própria humanidade.

A cadeia pode ter a endurecido por estratégia de sobrevivência, mas a essência é imutável. Desde a primeira temporada, quando ela deixou a Piper passar fome por ter insultado sua comida, dava pra ver que por detrás daquela máscara de mafiosa russa tinha uma mulher amedrontada tentando esconder suas fragilidades e vulnerabilidades como forma de se defender naquele meio.

“Perdi minha humanidade na sujeira por um tempo, mas ela está voltando aos poucos. Viu como tentei fazer uma coisa humana como dar de beber a um homem? Mas você não consegue aceitar. Além de não se ver, você também não me enxerga. E nós temos tanto em comum.” (Red falando para Piscatella)

Cenas que merecem destaque:

Primeira Um dos melhores diálogos dessa temporada foi o discurso que a Nicky fez pro noivo da Morello, no telefone: “A vida inteira ela só queria alguém dizendo que ela merece ser amada. Se você fizer isso, ela será boa com você, cuidará de você. Até vai dar um desconto pras suas cagadas mais profundas.

E quando sair daqui, provavelmente ela vai revirar seu telefone ou riscar o carro de uma colega de trampo. Só que ela vai fazer isso porque te ama. E tem gente que daria tudo pra ser amado assim.” Deu pra perceber que a Nicky estava falando de si mesma no final.

Esse diálogo conseguiu definir em poucas palavras o personagem da Lorna Morello, por isso, pra mim, foi uma das cenas mais marcantes não só da quinta temporada, mas de OITNB como um todo. A Morello é uma das minhas personagens preferidas, então, nem preciso dizer que fiquei com o olho cheio d´água.

Segunda Ligação da Piper pra mãe, contando que ia pedir a Alex em casamento. A resposta da mãe foi maravilhosa: “Sempre achei que você era a garota do relacionamento, mas acho que você sempre teve uma dose extra de testosterona. Então não deveria me surpreender.”

Terceira Alex contando, num dos flashbacks, para um cara num bar, que tinha acabado de denunciar Piper no tribunal por participação no seu esquema de tráfico de drogas: “Passei a tarde despachando para a prisão o amor da minha vida para me salvar. Porque depois de seis anos, ainda estou brava e magoada com ela. Mas ainda a amo e o amor dói.”

Quarta Todas da Gloria e da Tiffany. A primeira mostrou, pela milésima vez, que antes de cumprir pena em Litchfield e ser vista como criminosa, é uma mãe zelosa e preocupada com suas crias, disposta a correr qualquer risco por elas.

Enquanto a segunda começou como uma fanática religiosa antipatizada pela grande maioria do público e aos poucos foi se tornando mais carismática e humanizada, eu diria também. É muito fácil se identificar com ela e torcer pelo relacionamento dela com o guarda. A personagem da Taryn Manning foi uma das que mais se transformaram ao longo das temporadas e ainda tem muito o que mostrar.

Quinta A cena final. Todo fã de OITNB sabe que um dos pontos chaves da série são as cenas de fim de temporada. E dessa vez não foi diferente. Achei a cena bem parecida com aquela da temporada anterior, na qual todas estão juntas no refeitório para enfrentar Piscatella.

Ambas passam a mesma mensagem de colaboração e sororidade entre prisioneiras, que acima de tudo também são mulheres. Mulheres, de mãos dadas, que apenas querem manter sua dignidade num ambiente no qual isso os foi roubado delas.

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