O Centro Editor e os estudos africanos – Parte I

A importância cultural do Centro Editor de América Latina como difusor cultural dentro da Argentina e América Latina é reconhecida por todos os estudiosos da literatura e analistas sociais que se propuseram a desenvolver pesquisas e trabalhos sobre a editora. Entretanto, nem sempre a sua atuação difusora das temáticas sobre as africanidades é destacada.

Desde 1966, quando Boris Spivacow funda o centro de editoração, uma das pautas de discussão entre os intelectuais que constituíram o grupo de apoio a ele nessa empreitada era a de incentivar e divulgar estudos africanos e afro-americanos na Argentina. Muitos acadêmicos são enfáticos ao relatar que o CEAL foi pioneiro nessa tarefa tão importante para a literatura platina.

É preciso ressaltar que a narrativa até aquele momento, segundo a estudiosa Matínez-Echazábal, era predominantemente branca e não valorizava a mestiçagem ou os negros. Pode-se compreender tal ação principalmente devido a busca da construção de um passado legitimador para se pensar a nação Argentina após sua independência, valorizando assim uma literatura, acadêmica ou não, branca.

Embora seja importante lembrar que não devemos pensar a produção dos textos durante esse período como um bloco único, principalmente pelos diferentes contextos históricos em que essas reflexões foram desenvolvidas.

A coleção Siglomundo – La historia documental del siglo XX, desenvolvida pelo Centro e que teve sua circulação proibida pela ditadura de Juan Carlos Onganía através da Ley Nacional 17.401 em 1969, já trazia textos que abordavam conteúdos relacionados à África.

Norberto Vilar publicou dois escritos, sendo o primeiro “África ocupada”, e o segundo “África colonizada”, com um material ilustrado sobre a guerra da Etiópia. Carlos Martínez também contribuiu ao desenvolver “África: independencia y neocolonialismo”, debatendo questões de um contexto ainda muito recente.

Depois desta publicação, surgiram muitas outras como a coleção “Biblioteca fundamental del hombre moderno” que foi dirigida por Beatriz Sarlo desde 1971 e alcançou os 109 títulos. Sobre questões africanas podemos encontrar um texto de Francisco Ferrara que deu origem à obra “Asia y África: de la liberación nacional al socialismo”, María Elena Vela de Ríos também produziu “África, botín del hombre blanco” em 1972 e outra compilação de textos que o mesmo Ferrara elaborou com o nome de “Revolucionarios de tres mundos”, com colaborações também de Vela de Ríos, Noel Barbú e Carlos María Gutiérrez.

A coleção citada acima também trabalhou como a revolução mexicana, a revolução russa, movimento operário, política e sociedade com textos mais voltados para a ideologia esquerdista, embora nem todas as obras carregassem esse caráter.

Na próxima semana, continuaremos comentando um pouco sobre algumas publicações que abordaram a temática africana e afro-americana, principalmente durante a década de 1970 e a as importantes contribuições de María Elena Vela de Ríos que prosseguiu trabalhando com o enfoque das africanidades.

Vale a pena ler:

– MARTÍNEZ-ECHAZÁBAL, Lourdes. Mestizaje and the discourse of national/cultural identity in Latin America, 1845-1959. In: Latin American Perspectives, Nº 25 (3), 1998, p. 21-42.
– LECHINI, Gladys (comp.). Los estudios afroamericanos y africanos en América Latina – Herencia, presencia y visiones del otro. Buenos Aires: Consejo Latino Americano de Ciencias Sociales (Clacso), 2008.

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