O Centro Editor e a perseguição ditatorial – Parte II

A contribuição para o desenvolvimento cultural e a literatura na Argentina pelo Centro Editor de América Latina é reconhecido por todos os estudiosos que se dispuseram a analisar sua história, suas coleções e os diversos livros publicados por ela. A maioria dos acadêmicos que desenvolveram suas pesquisas ponderando sobre as ações produzidas pela editora também convergem quando o assunto é a dificuldade e a perseguição imposta pela ditadura do país ao trabalho de Spivacow e sua equipe.

Com o novo golpe militar em 1976, conhecido por suas ações de assassinatos e violação dos direitos humanos, praticando o que se conhece como “terrorismo de Estado”, a CEAL passou a sofrer mais fortemente com o jugo ditatorial. Era muito comum que as instalações do editorial sofressem com atentados e ameaças que atravessavam do físico para o fiscal, tudo visando dificultar ao máximo a publicação das obras.

As acusações, em geral, eram sempre as mesmas: publicação e venda de material subversivo. Em 1978, a promulgação da resolução 2977 do Ministério da Educação funcionou como uma espécie de Index Librorum Prohibitorum ao divulgar uma extensa lista de livros que estavam proibidos ou não eram recomendados. A coleção “Historia presente”, publicada pela CEAL, foi indexada por violar a resolução vigente.

No mesmo ano, agentes municipais e o Corpo de Cavalaria de Buenos Aires invadiram e trancaram os depósitos editoriais do Centro Editor. Na mesma ocasião, quatorze funcionários foram presos. Spivacow apresentou-se à Justiça e declarou ser o único responsável pelas acusações, solicitando que os trabalhadores fossem soltos.

Segundo o decreto 2322, a coleção referida acima selecionava cronologicamente determinados fatos da história mundial, principalmente da Argentina e América Latina, com o intuito de fazer apologia ao terrorismo, relatando diversas sublevações armadas.

Os materiais mais questionados pelos militares eram os livros que, segundo os próprios, exaltavam o marxismo, revoluções socialistas, movimentos operários, violência anti-imperialismo e organizações subversivas como a Frente Sandinista de Liberación Nacional, Movimiento de Liberación Nacional Cubano, Guerrilla Vietnamita, Revolución Socialista Peruana.

A punição pela impressão e divulgação de tal material foi o estarrecedor episódio da queima de um milhão e meio de exemplares do Centro Editor no ano de 1980, em um terreno baldio na rua Ferré, no Bairro de Sarandí, Buenos Aires, foi tão cruel quanto o assassinato de Luaces, então funcionário da empresa, pela Triple A. Outras queimas foram colocadas em prática em Córdoba e Rosario.

Somente com o final da ditadura em 1983 as perseguições cessaram, mas a ferida aberta pelos militares foi muito profunda. Nos anos que lhe restaram, antes da falência econômica e o consequente fechamento em 1995, a CEAL continuou a lutar bravamente para levar “livros para todos” e publicar “mais livros para mais”. E nem mesmo a ditadura foi capaz de impedir que esse compromisso estabelecido nos longínquos anos de 1960 por Boris Spivacow fosse realizado.

Vale a Pena Ler

La batalla de un hombre solo. Escrito por Tomás Eloy Martínez
O crime incendo-literário da Ferré

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook