Crítica Filme | A Garota no Trem

Crítica Filme A Garota No Trem Nunca duvidei da sanidade dos “loucos”. Sempre depositei minhas desconfianças nas costas daqueles que gostam de taxar os outros de loucos para sair como o “normal” da história. E com A Garota no Trem não seria diferente.

Desde o primeiro momento, minha simpatia e minha solidariedade estiveram com Rachel e assim, se mantiveram até a última cena do longa. Assisti ao filme sem ter lido a obra na qual ele foi baseado, mas mesmo assim não duvidei um segundo sequer do caráter da personagem interpretada maravilhosamente pela Emily Blunt (digna de Óscar, diga-se de passagem).

Alcoólatra, depressiva, surtada e obcecada pela vida dos outros. Ou seja, um prato cheio para ser julgada pela sociedade. Afinal, a culpa sempre é dos “loucos”, não é mesmo? Não! Não é mesmo! Pois quem disse que a loucura não é relativa? Já parou pra pensar que aquilo que você julga como louco na verdade só é algo que você não consegue compreender? E que pros “loucos”, você que é o louco? Não pensou, né? “Normal”… A maioria não pensa nisso mesmo. Mas deveriam…

Rachel me conquistou já na primeira frase: “Meu marido dizia que tenho uma imaginação hiperativa. ” Sim, nisso ele estava certíssimo. Ela realmente tem uma imaginação hiperativa. Mas isso a torna duvidosa e desequilibrada? Ou a torna mais esperta que as outras pessoas, capaz de enxergar o que a maioria não consegue? Da mesma forma que toda brincadeira tem um fundo de verdade, acredito que toda imaginação por mais mirabolante que seja tem um fundinho de verdade.

Depois do divórcio e dos problemas com alcoolismo, a moça se ocupava observando a vida alheia através da janela do trem. Ela estava completamente perdida e só, o trem era uma espécie de distração para ela. Até que ela começa a ficar obcecada por um casal que mora perto da ferrovia onde o trem passa.

Recém-casados, Megan e Scott pareciam ser o casal perfeito. Jovens, lindos, apaixonados, com a vida toda pela frente; tudo que Rachel almejava para si depois de seu casamento fracassado com Tom. Porém, nem tudo é o que parece. Eles só eram esse casal comercial de margarina visto da janela do trem. De perto, a realidade não era nem um pouco idealizada.

Megan, assim como Rachel, é uma mulher transtornada e traumatizada pela vida. Perdeu sua filha há muitos anos atrás por um descuido seu e carrega essa culpa dentro de si, de forma que isso chega a atrapalhar seu segundo casamento. Enquanto Scott seria ótimo se não fosse tão ciumento, possessivo, agressivo e até um pouco egoísta, pois em nenhum momento tenta se colocar no lugar da mulher para entender o verdadeiro motivo dela não querer ter um filho com ele.

Nesse contexto, entra outro personagem na história, o terapeuta. O único homem que passa segurança de verdade para Megan, pois era o único disposto a ouvi-la mesmo que fosse por uma questão profissional. Juntando o fato dela estar carente, abalada, cansada de ser abusada emocionalmente e destratada pelos homens da sua vida, o terapeuta era paciente e atencioso. Logicamente, não precisou de muito para Megan se apaixonar por ele.

Entretanto, quando Rachel vê os dois juntos na varanda da casa de Megan, toma as dores de Scott para si, pois ela sabe bem o que é ser traída. Achando que Megan é a grande vilã da história por não estar valorizando o casamento “perfeito” que ela sempre quis ter, Rachel começa a nutrir sentimentos de raiva misturados com inveja e admiração pela Megan. Só que ela não imaginava que Scott não era nenhuma vítima também, pois nessa história não há vítimas. Todos têm um nível de culpa. Alguns mais, outros menos, mas todos são culpados de certa maneira.

Diante disso, quando Megan desaparece e passa a ser procurada pela polícia, Rachel se torna uma das suspeitas mais óbvias. Além de alcóolatra com problemas psicológicos, Rachel tem diversos apagões nos quais ela não lembra de nada que aconteceu depois que acorda e pode muito bem, segundo a polícia, ter confundido Megan com Anna, atual mulher de seu ex marido. Afinal, as duas são loiras e parecidas fisicamente.

Porém, assim como em Garota Exemplar, a culpa nem sempre é dos “perturbados”, muito pelo contrário, pois esses geralmente, no final das contas, são os mais lúcidos. Os verdadeiros perturbados são aqueles que ninguém desconfia, os mais “equilibrados”.

O filme tem uma pegada feminista muito forte, de forma que as três mulheres estão conectadas por um mesmo elo; todas foram abusadas, tanto fisicamente quanto emocionalmente, pelo mesmo homem. E mesmo não sendo exemplos de perfeição (e alguém é?) não tem como o público não sentir empatia por elas e defendê-las apesar de todas suas imperfeições.

Até Anna, a mais omissa, digamos assim, no final do longa resolve fazer o que é correto ficando ao lado de Rachel e contando a verdade para a delegada.

A Garota no Trem pode não ser o melhor filme de suspense que existe (pois algumas coisas são um pouco previsíveis), contudo no quesito drama cumpre bem o seu papel. Como disse antes, não li o livro ainda, então não tenho como compará-lo com sua adaptação. Talvez no livro o foco tenha sido o suspense mesmo, mas no filme ficou claro que a prioridade foi o drama e o terror psicológico sofrido por essas três mulheres.

O mais importante, no final das contas, foi a sororidade mostrada, mesmo que de forma sutil, no final do longa. Afinal, todas foram vítimas do mesmo homem.

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10 comentários

  1. Raissa em

    O filme parece bem interessante, também gosto muito mais dos personagens julgados como “loucos” ou coisa do tipo, me faz refletir bastante, sobre muita coisa.
    Fiquei curiosa, espero poder assistir em breve (ou ler, quem sabe?).

    Resenha muito boa! 😉

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  2. Victória Villaça Felet em

    Sua resenha ficou fantástica, guria! ♥ Devo admitir que não estava ~super~ empolgada para assistir a esse filme, porém, depois do que li aqui, irei COM CERTEZA vê-lo. A única problemática é que talvez demore um pouco, pois desejo ler o livro antes de tudo. hahaha 😛

    E, poxa, a Emily Blunt é fantástica, né? Não dá para negar isso!

    Beijos,
    Attraversiamo

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  3. Daniele Yui em

    Eu queria muito ter visto este filme, porque gosto da atriz e gosto de filme assim. Mesmo não parecendo ser lá essas coisas, vou assistir. Bjo!

    http://www.pandapixels.com.br

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  4. Ana Letícia em

    Olá, tudo bem? Me sinto uma verdadeira ET por não ter assistido esse filme, vejo o pessoal falando tão bem dele e até agora não sei bem o porque de ainda não ter corrido para assistir. Adorei sua resenha, ela conseguiu prender minha atenção até mais do que alguns livros (rsrs), fiquei bastante curiosa para ver-lo. Obrigada pela indicação.

    Tchau e até logo

    http://www.meioassimetrica.com.br

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  5. Divana em

    Espera, como assim?
    Eu não assisti A Garota Exemplar, acho que de birra porque todo mundo estava falando sobre. Agora temos A Garota no Trem e tem muitas pessoas falando sobre também. Só que eu ainda não tomei a coragem pra assistir/ler nenhum dos dois.
    Estou, talvez, perdendo uma história chocante, com muito a se pensar. Nunca parei pra ver certinho a história por trás de cada título.
    Fiquei muito mais interessada agora.

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  6. Marcela em

    Eu detestei o livro A Garota no Trem, e por isso nem me interessei muito em ver o filme. MAS, depois dessa resenha, talvez eu crie coragem e dê uma chance, na expectativa de a adaptação se diferenciar do original nas questões que me aborreceram… Espero que os personagens sejam mais cativantes na tela!

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  7. Jade Amorim em

    Eu não vi o filme ainda e confesso que estava sem a mínima vontade de ver, apesar do hype.
    Todo lugar que vi critica sobre ele, só vi críticas negativas, e é o tipo de drama que, de acordo com meu melhor amigo que assistiu, me daria preguiça/raiva. hahahahaha

    Beijos

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    1. Jade Torres em

      Não poderia ter falado melhor, concordo plenamente com a minha xará. Só ouvi criticas negativas, tanto do livro quanto do filme. Passo longe.

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  8. Cadu Pereira em

    Parece que temos um bom filme sobre suspense. Talvez ele suba algumas posições na minha lista….rs

    Deu um pouco mais de vontade, por saber que a Lisa Kudrow está no elenco dessa produção. Por mais que não seja a Phoebe de Friends, é legal vê-la atuando.

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  9. Clayci em

    Acho que peguei alguns spoilers hauauhauha
    mas tudo bem.. Ainda não tive a oportunidade de assistir – nem ler – mas pretendo dar uma chance em breve *_*

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