Feminismo, Cinquenta Tons de Cinza, BDSM?

Estava em dúvida sobre como fazer este post. Acontece que, desde quando Cinquenta Tons de Cinza estourou, a questão BDSM vs Feminismo vs Relacionamento não só entrou em destaque como também me deixou com a pulga atrás da orelha.

Elas Opinam: Feminismo vs Cinquenta Tons de Cinza vs BDSM

Sou feminista não radical, algumas atitudes me dão nojo e ainda assim amei a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, uma declaração que, a princípio, não faz tanto sentido. Esclareço desde já que minha relação com o BDSM é estilo a música Caviar, do Zeca Pagodinho.

Mas sim, leio livros eróticos e Cinquenta Tons de Cinza não foi o primeiro, nem o último, que li do gênero. Apenas o mais popular. Desde o lançamento, acompanho infinitos textos e opiniões falando sobre seu conteúdo abusivo e admito que até poucos minutos atrás eu discordava completamente de todos. Explico:

Cinquenta Tons de Cinza se trata de uma história de amor, um romance entre um homem muito complexo que aderiu à práticas, digamos, pouco convencionais e uma mulher que sim, gostou dessas práticas. A autora quis escrever isso e, até certo ponto, escreveu sim.

Tanto no livro quanto no filme, fica muito claro para mim que quando Anastasia realmente não quer algo, ela diz não e simplesmente vai embora. Christian corre atrás dela (necessário no romance), dá presentes (afinal, tem grana), tenta comprá-la (porque só sabe fazer isso) – entretanto não é isso que a convence, é quem ele é, no fundo.

Visão romântica, certo? Essa é a minha opinião e, sinceramente, continua sendo. Porém, dois textos me fizeram finalmente enxergar o outro lado da história, o lado que provavelmente todo mundo está vendo e, até então, eu preferia não ver.

Os textos estão em inglês, mas seus títulos traduzidos são Eu Namorei o Christian Grey e 6 Quotes de Cinquenta Tons de Cinza para fazer você repensar como se sente sobre ele.

Nunca tive um relacionamento ao estilo Cinquenta Tons, mas sei, na pele, o que palavras e frases causam – e como você pode se sentir linda agora, e daqui a pouco ter a certeza de que não tem nenhum valor.

Quando me deparei com as seis frases, pude finalmente ver o que seria aquilo na realidade. Mais que isso, lendo o primeiro texto, fica claro como homens realmente abusivos podem usar Christian Grey e Edward (sim, o de Crepúsculo) a seu favor para convencer você, mulher apaixonada, que estão fazendo tudo para seu bem.

Não estou falando “vamos todos queimar Cinquenta Tons!” ou “vamos incluí-lo na lista de livros banidos!” – que, por sinal, acho uma babaquice – porém, talvez, também deveríamos ler Cinquenta Tons de Cinza com um olhar crítico em vez de apenas romântico.

Ou talvez não apenas crítico e não apenas romântico. Sem julgamento a respeito de quem curte BDSM, sem julgamento principalmente para as mulheres que curtem serem submissas – porque a preferência é delas e ninguém tem nada com isso.

Na minha opinião, a questão toda é a linha do respeito. Se está dentro dos limites e prazeres dela, e dele, do que ambos desejam, querem, almejam, etc – por que não? O que não vale é iniciar o jogo de manipulação – sentimentos não são jogos, afinal de contas.

Fala, Mari: Feminismo vs Sexualidade vs BDSM

Eu comecei a ler Cinquenta Tons mas nunca terminei (achei chato e mal escrito). Também não vi o filme ainda, mas pretendo. Afinal, com tanto rebuliço em torno da história, preciso conferir, não é?

Sadomasoquismo, BDSM, fetiches e etc são expressões citadas em qualquer texto sobre os livros e o filme. Mas será que as pessoas de fato entendem o que significam? Não vou discorrer em detalhes sobre isso aqui porque não vem ao caso e porque não me sinto capacitada para educar ninguém nesse assunto. Apenas quero apontar algumas questões.

Primeiro, BDSM é uma sigla que designa um conjunto de comportamentos sexuais englobando bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo. Não se trata de perversão nem de doença. Segundo, todas essas práticas envolvem CONSENTIMENTO.

Li muitas críticas a Cinquenta Tons vindas de pessoas da própria comunidade BDSM. Entre elas está a representação equivocada da prática na trilogia. Outra crítica frequenta é de que nem sempre haveria consentimento da parte de Anastasia.

Essa questão da violência doméstica é algo que me incomoda bastante, mas, ao mesmo tempo, também me perturba o “policiamento” da sexualidade alheia que muitos críticos do livro fazem. Embora tenha muitos defeitos, o livro foi escrito por uma mulher, muito provavelmente inspirado por fantasias que ela mesma tinha e com as quais certamente milhões de mulheres ao redor do mundo se identificaram, tornando o livro um sucesso de vendas.

Não sei explicar o que causou o estrondo de Cinquenta Tons de Cinza, uma vez que livros eróticos até muito mais “pesados” já não eram novidade no mercado editorial. Seja qual for a razão, ao meu ver o livro fez, sim, muito pelas mulheres.

Com seu sucesso, Cinquenta Tons de Cinza mostrou ao mundo que mulheres são seres sexuais e não têm porquê se envergonhar disso. Nunca se viram tantas moças e senhoras lendo um livro sabidamente erótico em locais públicos sem qualquer tipo de pudor.

E é por isso que é tão problemático julgar as mulheres que consomem esse tipo de literatura como “alienadas”, “ignorantes” ou coisa pior. Comentários como “mulheres que lêem Cinquenta Tons fazem menos sexo” são não apenas levianos (alguém conduziu um estudo a respeito para afirmar isso?) mas também carregados de machismo. Nunca vi ninguém dizendo que leitores da Playboy fazem menos sexo ou são mais ignorantes que a população em geral.

Cinquenta Tons tem problemas? Sim, muitos. Acho que deve ser lido com um olhar bastante crítico. Mas se foi o que fez com que milhões de mulheres perdessem o medo de encarar a própria sexualidade, só posso aplaudir de pé.

Entenda o BDSM (em inglês)

Ei, já conferiu a resenha dos outros volumes?

Resenha Cinquenta Tons de Cinza Resenha Cinquenta Tons Mais Escuros Resenha Cinquenta Tons de Liberdade

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4 comentários

  1. Mateus Sacoman em

    Show de bola meninas! Grande texto!

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  2. Caio Borrillo em

    Acho que independente de ser feminista ou não, é preciso ter o direito de ler o que quiser. Romance erótico, best seller, romance de banca, dicionário, leitura é leitura. E existem autores bons e autores chatos.

    Cinquenta Tons de Cinza é um livro com um tema bom – erotismo – numa roupagem conservadora e abusiva, além de ser muito mal escrito. Por que conservadora? Porque demonizou e ainda descreve totalmente errado as relações de BDSM e ainda prega que Grey, um misógino abusador e maníaco por controle, só pode ser salvo dessa “libertinagem” através do “amor de Anastasia”.

    Ou seja. Ao invés de mostrar que BDSM é uma das várias relações que se pode ter no âmbito sexual, ela mostra que aquilo não é feito por pessoas direitas, apenas por maníacos traumatizados, obcecados por controle, como Grey. Além disso, que romance pode ser considerado saudável para um sujeito que rastreia todos os passos de Anastasia? Isso pra mim se chama stalker e não é saudável, é abusivo, assim como vários momentos em que ele manda na vida dela e ainda tira a virgindade de Anastasia numa das cenas mais deploráveis de sexo que tive o desprazer de ler.

    Então, apesar de concordar que todos temos o direito de ler e gostar de qualquer coisa, de qualquer esfera, temos que também reconhecer os problemas dessas coisas. E não estou dizendo que ninguém deva ler 50 Tons de Cinza, apenas que se reconheça que ele não contribuiu em nada para sexo, erotismo ou literatura. Ao contrário, ele causou mais dano do que qualquer outra coisa, pois reforça o estereótipo de “libertinagem” em qualquer relação que não seja a romântica monogâmica e reforça o estereótipo extremamente danoso de que “mulher só pensa em dinheiro mesmo”, por causa do deslumbramento da Anastasia com o poder financeiro do Grey.

    No mais, é um livro fraco no quesito escrita, pois foi fanfiquizado de outra série de livros ainda mais conservadora e pobre que é Crepúsculo.

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  3. Maria em

    Feminismo e 50 Tons de Cinza é um assunto polêmico desde que a trilogia começou a fazer sucesso. Eu comecei a ler, não gostei e não pretendo o filme, sim sou feminista. Apesar de concordar com a Mari, sim os livros criaram um espaço muito bacana para que as mulheres pudessem se tornar mais livres quanto a sua sexualidade, o relacionamento dos protagonistas não tem nada de empoderador. É um relacionamento abusivo e certas cenas do livro me deram ânsia de vômito, um exemplo é uma onde o Grey bate na menina e simplesmente vai embora depois. Mesmo pessoas que eu conheço (alô, amigas do tumblr) que fazem parte do universo BDSM, desaprovam a falta de cuidado do Grey com a parceira. Claro que cada um tem direito de ler o que quiser, mas não é pra mim.

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  4. marcia em

    legal… vou visitar mais vezes gostei muito

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