É apenas um romance: um questionamento – Parte I

Em A Abadia de Northanger, Austen faz simultaneamente uma paródia e uma defesa dos romances góticos, tão populares no final do século XVIII. Na época, esse tipo de livro era visto como “livro de mulherzinha”, ou uma literatura menor, que não deveria ser realmente levada a sério – o que ocorre até hoje com os romances românticos modernos. O preconceito literário continua o mesmo.

Esse preconceito está muito ligado à cultura sexista que nos diz o tempo inteiro que histórias de homens são universais, enquanto livros escritos/protagonizados por mulheres só interessam a mulheres. Um exemplo clássico disso foi a opção de Joanne Rowling por publicar os livros da série Harry Potter usando apenas as iniciais J. K. e o sobrenome, diante do receio de seus editores de que meninos não leriam livros escritos por uma mulher.

Romances românticos são frequentemente associados a donas de casa e solteironas frustradas emocional e sexualmente. Mulheres sem muita cultura ou juízo crítico. A verdade é que o público consumidor desse tipo de literatura é o mais diverso possível: mulheres de todas as idades, etnias, religiões e classes sociais, e até mesmo homens. Sim, é isso mesmo: de acordo com estatísticas da Romance Writers of America, 9% dos leitores de romances são homens.

No último dia 7, Maya Rodale, autora de romances e uma das defensoras mais ativas do gênero, publicou Dangerous Books for Girls: The Bad Reputation of Romance Novels, Explained, no qual examina as origens da má fama dos romances, desde o século XIX até os paperbacks atuais, mostrando como eles inspiraram e empoderaram gerações de mulheres.

Considera-se que autores dos séculos XVIII e XIX, como Austen e Richardson, lançaram as bases do gênero, tendo servido de inspiração para autoras do século XX, como Georgette Heyer e Kathleen Woodiwiss, que seriam as verdadeiras pioneiras do romance romântico moderno.

Por serem majoritariamente de autoria feminina, darem destaque a protagonistas mulheres e tratarem de assuntos considerados exclusivos do universo feminino, como relacionamentos e amor romântico (novamente uma visão sexista), os romances são facilmente rotulados como uma categoria literária indigna da atenção de indivíduos inteligentes, com a desculpa de que são todos mal escritos ou de que tem enredos bobos e personagens unidimensionais.

Alguns sequer consideram o gênero como “literatura de verdade” (mas, afinal, quem decide o que é literatura?). Ironicamente, a maioria das pessoas que criticam os livros dessa forma nunca se deu ao trabalho de ler um deles.

Pode-se argumentar, por exemplo, que o trabalho de James Patterson é comparável em qualidade ao que Nora Roberts faz em sua série Mortal, mas apenas ela é usada como exemplo de escrita ruim ou tramas baratas, como muito bem colocou Emma Teitel em seu artigo para a revista canadense Maclean’s.


Leia a segunda parte de É apenas um romance: um questionamento clicando aqui


Mesmo cercado por tanto preconceito, o universo dos romances é uma indústria multibilionária que chega a vender mais do que livros policiais, ficção científica e fantasia nos EUA e no Canadá, como aponta Laurie Kahn, cineasta autora do projeto Love Between the Covers, um documentário sobre a comunidade surpreendentemente poderosa de autoras e leitoras de romances.

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2 comentários

  1. Michelle Motta em

    Olha, é muito verdade tudo o que você apontou, mas nossa sociedade possui uma cultura sexista desde que nos entendemos por sociedade, como por exemplo a cor rosa ser considerada feminina e a azul masculina. Isso está entranhado em nossa mente de maneira tão intensa que sem perceber nos colocamos de maneira preconceituosa. Mas felizes somos nós, amantes de bons romances e livres de preconceitos.

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    1. Mariana Fonseca em

      Sim, Michelle, é verdade. Vivemos em uma cultura machista e patriarcal há milênios. Mas sempre é tempo desconstruir preconceitos 🙂

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