[Entrevista] Paulo Henrique Ferreira

Por Janaina Barreto
exclusivamente para Beletristas. Proibida cópia total ou parcial

Paulo Henrique Ferreira nasceu em dezembro de 1978 em São Paulo. Entretanto, viveu até os 17 anos na cidade de Furnas, em Minas Gerais. Cursou jornalismo na PUC de Campinas e é mestre em Ciências da Computação na ECA, da USP. Vive com sua esposa no Rio de Janeiro e é diretor de mídias digitais do grupo LANCE!. Álbum Duplo foi seu primeiro romance e você pode conferir a resenha aqui.

Livro Álbum Duplo, de Paulo Henrique Ferreira

Beletristas Sempre gostei de livros que, de certa forma, indicam boas músicas e a mesmas tem um peso tão grande nas histórias. O Marlo parece alguém realmente apaixonado por música e fico curiosa: vale o mesmo para o autor? Como surgiu a ideia desse “romance musical”?
Paulo Henrique Ferreira Sou fã de rock and roll e também gosto de obras que abordam o tema – de forma direta ou incidental. Na verdade, sempre buscava este tipo de romance nas livrarias, mas só encontrava obras de autores estrangeiros ou, quando encontrava de brasileiros, geralmente com um objeto factual. Então vi que havia espaço para este estilo na literatura brasileira e quis fazer esta contribuição.

Este romance, portanto, surgiu de canções, músicos e bandas que eu amo. Desde a faculdade, aprofundei bastante na obra do Lou Reed, Bob Dylan, Beatles, David Bowie, Queen, entre outros. Desde aquela época, desenvolvi uma inquietação para amarrar um pouco daquela poesia, daquele som, em uma história onde as músicas influenciassem, de fato, a reflexão e ação dos personagens.

Fiz isso em vários textos experimentais e quando comecei a escrever o “Álbum Duplo”, as canções foram surgindo de forma natural no decorrer do processo de redação. Óbvio que houve influência do Nick Hornby e Cameron Crowe, mestres do estilo, mas procurei beber também em outras fontes e fazer associações ainda mais diretas e cruas, para manter uma pegada rústica, bem rock and roll mesmo.

Por isso que na hora da raiva de Marlo Riogrande, vinha naturalmente um Rolling Stones. Nas drogas, The Doors. No sexo, Lou Reed. No quebrantamento, Nick Cave. E por aí vai. Então foi um processo associativo relativamente fácil, já que esta trilha surgiu a partir do meu repertório pessoal. Afinal, os artistas e discos mencionados fazem parte da minha discoteca e, claro, da minha formação pessoal.

B No estilo dos grandes astros de rock, tão empáticos quanto problemáticos, você se inspirou especialmente em algum artista de quem é fã ou algum conhecido/amigo para tornar o protagonista tão real a ponto de querer fazer o leitor dar-lhe uns bons tapas?
PHF O “muso” do Marlo Riogrande é o Lou Reed. Só este fato já diz muita coisa. Só que o Marlo não é o Lou, porque, é claro, o Lou Reed é foda. Então, na tentativa de ser uma cara durão e descolado, Marlo só fracassa miseravelmente.

E aí torna-se este anti-herói que tem causado tantos questionamentos. Porque, justamente, ele é um cara comum. Então, a partir de um vislumbre inspiracional do porte do Lou Reed, o Marlo é também inspirado em garotos reais. Inspirado um tanto em mim, outro tanto em amigos e também em conhecidos de amigos, que vivem ou viveram situações de desilusão, amizades complicadas, traições bestas e tantas outras molecagens.

Uso o termo “molecagens” porque o Marlo, no momento do livro, ainda não é homem. É um garoto, apesar de já ser formado, ser professor e tudo mais. Mas, na real, é imaturo, como são muitos “adultescentes” de hoje. Por isso o Marlo é um personagem em quem as leitoras (principalmente) e leitores querem dar uns tapas. Porque ele não é um príncipe, não é um arquétipo.

Na verdade, ele é um tipo muito mais comum do que muitas leitoras, sobretudo as mais jovens, podem imaginar. Por isso que eu quis fazer um personagem mais real, com muitas falhas de caráter ordinárias, longe do maniqueísmo que a literatura no geral tem entregado, com heróis complexamente perfeitos.

Meu intuito foi revelar um pouco mais o tosco funcionamento de uma mente masculina imatura. Acho que funcionou, justamente por constatar algumas reações furiosas e indignadas. O que é bom sinal, a propósito, pois gostando ou não do livro, estas pessoas não se esquecerão tão facilmente do pobre Marlo.

Se um dia viverem alguma situação parecida, tenho certeza vão se lembrar destas desaventuras. Assim, terão mais sensibilidade para relacionar os fatos e agir com um pouco mais de sabedoria, pois a literatura nos ajuda a expandir a mente, a fazer novas conexões cognitivas. Então, no final das contas, espero que o Marlo ajude as pessoas a perceberem que muitos de nós temos que tomar uns tapas da vida, antes de virar o disco.

Livro Álbum Duplo, de Paulo Henrique Ferreira B No último capítulo, Marlo fala em recomeço e bate à porta de Marcela. Se “Álbum Duplo” tivesse um epílogo contando se os dois têm ou não uma segunda chance, qual seria, pra você, a melhor trilha sonora?
PHF Apesar de não ter coragem de arriscar uma continuidade – pois o livro definitivamente acabou ali – torceria para que Marcela perdoasse e o Marlo virasse homem, de uma vez por todas. E fossem felizes, vivendo um relacionamento maduro, de aceitação, perdão, altruísmo. Sem ilusões bobas, sem cobranças vaidosas e com a marca da salvação que só Amor pode provocar na vida das pessoas.

Aí, neste sentido, acho que a música escolhida para um epílogo seria “Love is the Sweetest Thing”, do U2. Seria até divertido escrever que o nosso Marlo Riogrande sente um arrepio toda vez que ouve esta canção, aliviado por ter conseguido resgatar o que há de mais doce em sua vida.

B No blog/site destinado ao livro Álbum Duplo, podemos ver que você, apesar de ter já algumas crônicas e outros textos publicados, trabalha mesmo é com mídias digitais. Tudo é forma de comunicação, mas pode ir cada um para um caminho diferente, então, porque escrever um romance?
PHF O romance confirma uma necessidade inescapável de escrever, de comunicar, de me expressar. Este foi o maior valor ao fazer jornalismo, uma carreira complicada, com muitos altos e baixos, mas que pode ser positiva na formação pessoal, pois exige do profissional não apenas uma visão do conteúdo, mas também uma visão macro, estruturante, da comunicação, da mídia, do mercado editorial e de suas transformações.

Graduado no final do ano 2000, percebi que deveria entrar de cabeça na mídia digital – até então incipiente no Brasil – porque estava ali o novo ciclo de transformação da mídia e dos hábitos de consumo de informação. Não precisava ser gênio para entender isso. Então acabei me posicionando bem no mercado de mídia digital, com uma dissertação de mestrado na ECA-USP sobre o tema, além de muitas oportunidades profissionais que me levaram a ser, ainda jovem, diretor do LANCE!, um grande veículo nacional.

Mas esta trajetória não me afastou da minha origem, que está na necessidade de expressão – em particular pela escrita. Por isso que, após alguns livros publicados sobre mídia digital e alguns projetos literários na internet, resolvi sentar, concentrar e escrever meu primeiro romance. Já estava com mais de 30 anos e preparado para arriscar esta empreitada.

A redação do livro demorou cerca de 8 meses, de outubro de 2011 a junho de 2012. A ideia surgiu de uma releitura que fiz do “O Encontro Marcado”, do Fernando Sabino, no final de 2010. Ao terminar de ler este livro, notei como era história simples, linear, no sentido da trama, porém que explorava com profundidade o processo de transformação de um homem entre a juventude e a vida adulta. Um romance honesto, com estilo limpo e direto.

E aí constatei duas coisas: primeiro, nossa literatura, sobretudo em nossa geração, demanda mais livros como “O Encontro Marcado” e, segundo, que eu estava preparado para escrever um livro que capture as questões de nossa geração, com uma história linear, direta e bem escrita. Dava para fazer.

Com este propósito, foi uma questão de sentar e escrever o “Álbum Duplo” que, de alguma maneira, já estava bem estruturado na minha cabeça. E o romance, ao final das contas, virou mais um produto de minha capacidade de me expressar, seja através de livros, seja nas plataformas digitais. De preferência, em ambos.

B Ainda no blog/site do livro, vemos o link do seu blog Angústia do prelo, que foi encerrado pouco mais de um ano após a sua criação. Como esse blog lhe ajudou durante o trabalho com a edição de Álbum duplo?
PHF O blog me ajudou a “segurar a onda” durante o processo de edição do romance. Não imaginava que esta etapa fosse tão demorada. Em um dado momento, cheguei a pensar que a editora tinha desistido de publicar o livro. Mas aprendi que é assim mesmo, sobretudo nas grande editoras, que tem grande volume de trabalho.

E o autor, sobretudo o iniciante, tem que entender o outro lado e lidar com tudo isso, com este período de ansiedade, até que o livro seja publicado. É uma baita experiência. Por isso que, em um dado momento, ao invés de me preocupar, resolvi registrar este período com textos e ideias relacionadas com o momento que estava vivendo.

Foi uma atitude produtiva, porque daí surgiu o “Angústia do Prelo”, que me ajudou muito a me acalmar, dando vazão ao ato de escrever, enquanto o processo de edição do Álbum Duplo não dependia mais de mim.

B Álbum Duplo é a sua estreia oficial como escritor, então, como foi, para você, ser, de primeira, publicado já por uma editora tão um grupo tão grande quanto o Editorial Record?
PHF Pois é. Foi uma estreia em grande estilo. Na verdade, a história começou quando o Álbum Duplo foi contratado pela editora Paz & Terra, do Marcus Gasparian (que assina a apresentação da obra), o que já foi sensacional. Porém, neste meio tempo, a Paz & Terra foi vendida para o Grupo Record. Nesta hora pensei comigo: “ferrou de vez”. Não sabia se eles iam aproveitar o livro, se cancelariam o contrato ou me deixariam na espera.

Mas tive a sorte de me deparar com pessoas generosas, como a Guiomar de Grammont, o Lucas Bandeira, a Luiza Miranda, o Bruno Zolotar, entre outras pessoas de boa vontade, que acolheram o projeto e optaram por lançar o romance pelo selo de ficção nacional da Record.

Então o Álbum Duplo nasceu grande, bem distribuído, alcançou muitos leitores e, agora, quase um ano após seu lançamento, continua vivo, sendo divulgado, resenhado, vendido e lido. Tudo isso me ensina que um livro é algo vivo (por isso muitas vezes comparado a uma árvore e a um filho) e que a realidade pode ser maior e mais potente do que você sonhou lá no começo.

O segredo é trabalhar com afinco, honestidade e inteligência. Porque o resultado vem. E, muitas vezes, de forma surpreendente.

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