In the end: uma homenagem a Chester Bennington

Há tensão no estúdio. O grupo de amigos, como velhos guerreiros, mais uma vez guarnece seus instrumentos. Depois de tanta luta e tanto trabalho, precisavam tomar a decisão mais importante, o passo final para atingir um nível superior em sua dura jornada.

O rapaz que tinham ouvido ao telefone dias antes pegava também o microfone, demonstrando alguma intimidade com o ambiente. Ele que tinha adicionado um toque tão peculiar às músicas que recebera deles, que atravessara o país de carro para estar ali, que dormira no carro em frente ao estúdio por não ter condições de se hospedar, olhava um pouco sonhador aqueles outros cinco guerreiros nos segundos antes de começarem a audiência.

Havia outro candidato a vocalista no estúdio, ele teria sua vez de ser provado depois deste garoto estranho, magricela, pálido e com os braços ardendo em chamas tatuadas.

O guitarrista e o Dj começam juntos a introdução, o baterista golpeia a caixa indicando a entrada, e a primeira coisa que ouvem é um intenso e rasgante grito saindo dos alto falantes, com uma potência nunca antes vista, que, ao mesmo tempo em que os fascina, os espanta, e aquele grito perdura, sustenta sem variar de tom ou intensidade.

Aquilo não estava na música original! O rapaz esquálido com tatuagens de chamas adentra os versos da música como se fossem seus, como se saíssem de sua própria alma. O segundo candidato, o único concorrente, observa aquela performance única e monstruosa e simplesmente se retira do estúdio sem esperar sua vez.

In the end: uma homenagem a Chester Bennington

Com menos fantasia e drama que essa descrição, talvez, foi assim a audiência de Chester Bennington para ser aceito na banda que inauguraria o New Metal, dividindo assim os dois séculos, abrindo o milênio do novo Rock ‘n’ Roll. Antes de ser o Linkin Park, eles já tinham sido a Xero (pronuncia-se com /z/), e a Hibrid Theory (mudaram por já haver uma banda com esse nome na época), um grupo antigo de amigos que fazia música no tempo de colégio.

Phoenix, Mike Shinoda, Brad Delson e Rob Bourdon já se conheciam quando o famoso Chester se tornou um deles e a face do Linkin Park. Depois de muitas rejeições, apresentações em que os auditores das gravadoras não os deixavam ao menos terminar as músicas, estouraram no começo dos anos 2000 com o álbum Hibrid Theory.

Sempre encontramos essa ironia, uma lista de produtores que rejeitou um futuro fenômeno, sem ver o talento que tinham em mãos e deixavam passar. Porque acontece isso? O Linkin Park, assim como todos os outros casos parecidos, trouxe algo novo, algo que os produtores até talvez tenham visto, mas não quiseram arriscar suas carreiras com uma inovação, que não condizia muito com o que já era comumente aceito.

Misturando harmoniosamente o RAP e a música eletrônica com o rock ‘n’ roll, o Linkin Park criou um rock jovem. Não negava as raízes dos anos 70 e 80, mas o fez ser de novo a música dos garotos e para os garotos, o rock ‘n’ roll não estava mais somente nas mãos de uma banda de sessentões respeitáveis, o Linkin Park veio mostrando que o rock ainda tem muitos anos de vida.

Não era a primeira vez que o rock e o RAP se encontravam, Aerosmith e Run DMC já tinham feito isso com Walk this Way. O fenômeno Linkin Park transcende a inovação de estilo e concentrou em Chester a figura inspiradora para muitos jovens dos anos 2000.

A era digital se iniciava e com ela chegava a solidão provocada pela internet. A indústria e a tecnologia avançavam, os engarrafamentos ficavam mais demorados, os pais ficavam mais distantes, a exigência por um bom emprego ficava cada vez maior, a necessidade romântica de ser alguém ainda estava presente, e isso tudo isolava os novos membros da sociedade que tinham a responsabilidade de se tornar o futuro deste novo milênio.

A solidão, a depressão, a dificuldade em se abrir, tudo isso pressionava esses jovens como paredes ao redor que se fecham, e nas letras profundas do Linkin Park, em que Chester derramava sua frustração, sua solidão e seus traumas, esses jovens solitários se encontravam.

Sentiam-se amparados por alguém que mal conheciam, encontravam mensagens que lhes davam força e alívio. Assim como muitos desses jovens, Chester viveu na solidão, na opressão, combatendo depressão e drogas, entre os fantasmas de seus traumas de abuso sexual na infância.

O fenômeno Linkin Park era muito mais que boa música, muito mais que novidade, era um amparo para pessoas que se viam perdidas e sozinhas, era um grito nas trevas, eram palavras de companhia e de força: even if you’re not now with me, I’m with you… With you.

“Quando minha hora chegar / esqueça os erros que cometi
ajude-me a viver por trás de razões / para que me sintam a falta
Não me tenha ressentimento / E quando te sentires vazio
Mantenha-me na memória / E deixe de lado
todo o resto.” Leave out all the rest – Linkin Park

Esses jovens dos anos 2000, alguns que aprenderam a gostar de rock com o Linkin Park, apenas ouviram falar das tragédias. Como terá sido receber as notícias na época? Como terá sido perder aqueles artistas do antigo rock ‘n’ roll que deixaram o mundo no meio da caminhada? Presley, Morrison, Joplin, Hendrix, Bonham, Cobain.

A desgraça chega para todas as gerações, e nós também tivemos a nossa. Em circunstâncias inacreditáveis, Chester Bennington também parte deste mundo. Deixa cinco irmãos, seis filhos e uma multidão incontável de fãs desamparados que viam nele a sua força. Mas a mensagem final não é de abandono, ele já nos tinha deixado sua despedida desde o Minutes to Midnight.

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1 comentário

  1. Filipe em

    Emocionante, parabéns!

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