Mulheres na Literatura: um questionamento social

Quantas mulheres escritoras lemos por ano? Quantas fazem parte do cânone literário? Quantas são consideradas clássicas na literatura brasileira? E quantas publicaram como anônimas ou com pseudônimo masculino? Não é de hoje esse questionamento. As mulheres, não só na literatura, eram consideradas menores que os homens, com intelectual passível de ser questionado.

Por muito tempo, e se duvidar até hoje, nosso intelectual é desprezado. A mulher costuma ser vista apenas como mãe, dona de casa e como objeto para os homens. Podemos citar um exemplo atual. J.K. Rownling, famosa e reconhecida mundialmente por criar o mundo mágico de Harry Potter, teve seu nome abreviado de Joanne Kathleen (este último era o nome de sua avó) para J.K. por sugestão de seu agente literário, pois este achava que os meninos teriam uma maior recusa de ler um livro escrito por uma mulher.

Continuando na literatura inglesa, Jane Austen (1775-1817) não teve seus livros publicados em seu nome enquanto esteve viva. As irmãs Brontë – Charlotte (1816-1855), Emilly (1818-1848) e Anne (1820-1849) – também tiveram seus livros publicados em pseudônimos – Currer, Ellis e Acton Bell, respectivamente. A Anne Brontë é ainda reconhecida por ter escrito um dos primeiros romances feministas, A inquilina de Wildfell Hall (1848). Em Jane Eyre, vemos Charlotte Brontë questionando a forma como a sociedade concebia o papel da mulher:

“É inútil dizer que os seres humanos deveriam satisfazer-se com uma vida tranquila. Eles precisam de ação. E se não a encontrarem, irão fazê-la acontecer. Milhões estão condenados a um destino ainda mais inerte do que era o meu, e milhões sentem uma revolta silenciosa contra esse destino. Ninguém sabe quantas rebeliões de caráter político, fermentam no peito das pessoas. Espera-se das mulheres que sejam calmas. Mas elas são como os homens. Precisam exercitar suas faculdades, necessitam de um campo para expandir seus esforços, assim como seus irmãos. Sofrem com as rígidas restrições, a estagnação profunda, tanto quanto os homens sofreriam. E é tacanho por parte desses seres mais privilegiados dizer que elas devem se limitar a fazer pudins e a tecer meias, a tocar piano e a bordar bolsas. É insensato condená-las, ou rir delas, quando buscam fazer ou aprender coisas novas, além do que os costumes determinam que é o ideal para o seu sexo.”
(BRONTË, C. Jane Eyre, BestBolso)

É um trecho bastante significativo e de um grande questionamento social do papel da mulher e da sua intelectualidade. E levando em consideração que a obra foi publicada em 1847. Contudo, dentre as irmãs Brontë, a obra mais rejeitada a de Emily Brontë. Devido aos personagens extremamente desprezíveis, O morro dos ventos uivantes foi o mais rejeitado.

O feminismo, surgido no século XX, veio para questionar a forma como a mulher era vista pela sociedade. Dentro da literatura, Virgínia Woolf (1882-1941) escreveu um ensaio intitulado “Um teto todo seu”, em 1929, negando a dicotomia metafísica entre homens e mulheres.

Trazendo para a realidade brasileira, menos mulheres estão no cânone literário se formos comparar com a realidade britânica. Nesse caso, estudos de gênero no ambiente universitário levantam essa questão e tentam resgatar mulheres letradas no Brasil.

Muito mais que uma bandeira na literatura, questionar a sociedade pode ser considerado um dever para com as minorias, consideradas incapazes, menores que os grupos privilegiados. Cabe olhar dessa forma para todo tipo de arte, produção de conhecimento e trabalho.

Referências

— BRONTË, Charlotte. Jane Eyre. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011.
— DUARTE, Constância Lima. O cânone literário e a autoria feminina. In: AGUIAR, Neuma (orgs). Gênero e ciências humanas: desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record, Rosa dos Tempos, 1997.
— ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de Romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos (1890-1930). Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.
— SENEM, Márcio André. O feminismo de Virgínia Woolf e a literatura pós-colonial. Revista Anuário de Literatura. Florianópolis, Santa Catarina. 2008. Disponível em
— Sobre J.K. Rowling. Disponível em

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