Silêncio, o olhar para dentro

Minha relação com o silêncio sempre foi contraditória. Sempre. A começar pela infância. Segundo minha mãe, comecei a falar mesmo (errado, diga-se de passagem) e pouco a partir dos quatros anos (!). Isso quer dizer que antes disso não dizia um “ai” para contar história.

Esse pequeno e grande fato já previa algumas dificuldades que haveria de ter pela frente. Primeiro delas, a incompreensão. Realmente tinha alguns bloqueios internos na fala, mas as pessoas não entendiam e tampouco aceitavam muito bem essa minha característica. O certo seria uma criança espevitada, travessa, falando pelos cotovelos… Mas eu não era assim.

Em vez disso, não reparavam que mesmo falando quase nada, eu dizia muita coisa. Às vezes pelo olhar, no modo como brincava com meus brinquedos, minha alegria e euforia quando começava aquele desenho preferido e por aí vai… Não sei dizer se as pessoas são desatentas mesmo ou se têm preguiça de apreender detalhes sutis, porque a comunicação vai muito além da fala, como sabemos.

Por isso, o silêncio, pelo menos para mim, tornou-se um peso, inconveniente e desconfortável, pois me sentia cobrada o tempo todo de preencher o espaço com minha voz, mesmo sem ter a mínima vontade de quebrá-lo.

Esse julgamento de insegurança sobre o silêncio foi aos poucos sendo desconstruído por mim, à medida que fui me conhecendo e me aceitando como sou. O silêncio fazia parte de mim, era minha velha companheira de sempre, não importava o que dissessem.

A aceitação trouxe benefícios. Comecei a ver o lado positivo da coisa. Se o espaço não era tantas vezes preenchido pelas minhas palavras, o era pelos meus pensamentos, meu universo particular. Podia ser calada, mas era observadora e contemplativa, regalias que só uma natureza silenciosa podia conceder.

O ato de observar alguma coisa ou alguém, dando a atenção merecida, era fundamental. Ouvir o que o outro tinha a dizer, sem atropelos, sem interrupções, era igualmente admirável. Me dediquei, então, a trabalhar com aquela quietude que me comprimia, escrevendo e capturando detalhes fugazes das coisas e das pessoas, ainda assim belos.

Hoje em dia consigo lidar melhor com o silêncio. Há armadilhas, claro, como as más interpretações das pessoas que tentam extrair algo de seu mutismo, pessoas que gostam mais de falar se sentirem pouco à vontade com sua companhia… Mas apesar de tudo, não trocaria por nada meu estado constante de introspecção, porque é por meio dele que consigo enxergar o mundo.

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