Minha Personagem Favorita: de Capitu a Mary Poppins

Que coisa mais difícil escolher a minha personagem favorita! E aqui falo de uma mulher na literatura, pois sou daqueles que não usa o substantivo somente no feminino. Tem a personagem e o personagem. Aos apegados ao gênero único, beijinho no ombro.

Voltando ao assunto, que coisa mais difícil! Logo de cara, pensei na Capitu. Capitu é a personagem mítica da literatura nacional. É o segredo, é o mistério, é amor e é o ódio. Uma personagem fascinante, mas não foi a minha escolha.

Pensei em Macabéa, personagem de Clarice Lispector, sofredora, guerreira, ingênua e sonhadora. Macabéa é a brasileira de baixa renda, a retirante, a excluída e faz parte da nossa vida. Forte e frágil ao mesmo tempo, uma personagem apaixonante, mas não foi a minha escolha.

Pensei em Hermione Granger, a verdadeira heroína daquela saga do bruxinho incompetente, mas predestinado, que teria morrido no primeiro livro se ela não estivesse com ele. Enquanto Harry sabe dois ou três feitiços por livro, Hermione sabe tudo. Sabe feitiços, poções e todas as histórias dos bruxos. Hermione é uma personagem valente, amiga, prestativa, fiel, mas não foi a minha escolha.

Pensei em Penélope, de Odisseia (inteligente e apaixonada); em Julia, de 1984 (forte e determinada); em Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito (dura e dona de si); em Diadorim, de Grande Sertão: Veredas (decidida e dona dos olhos verdes mais lindo da literatura); em Lisbeth Salander, da trilogia Millennium (esperta e vingativa); ou mesmo em Úrsula Iguarán, a chefe da casa dos Buendía em Cem Anos de Solidão. Mas nenhuma destas foi a minha escolha.

A minha escolhida transcende a literatura, invade as telas de cinema e vem da vida real. E em cada um desses ambientes, ela é diferente. E as histórias em volta dela também são dignas de serem contadas. A minha escolhida foi: Mary Poppins.

Mary Poppins é uma babá com dotes mágicos criada por Pamela Lyndon Travers. Ela é dura e disciplinadora, bem chata, num primeiro olhar. Não chega a ser uma coadjuvante nos livros que leva o seu nome, mas os personagens principais são outros, principalmente as crianças. Mary é quem faz o enredo correr, é quem dá possibilidade ao que vai ser descrito.

As histórias são mais encantadoras do que a babá. A personagem foi baseada numa tia de Pamela, que foi cuidar dela e da irmã quando o pai ficou muito doente. Aliás, o primeiro livro é uma redenção da história familiar de Travers. Um pai sonhador e irresponsável que faz a filha muito feliz com as suas brincadeiras, e a mãe tendo que lidar com a realidade e não dando conta das coisas. E Pamela, ali, no meio disso, amando o pai e tendo que lidar com os problemas.

O pai trabalhava num banco, mas não dava valor ao dinheiro, coisa que sempre faltou em casa. Não por acaso, o nome da família no livro é Banks. A construção dos personagens é quase uma antítese do que foi a família de Travers. Mary Poppins aparece na casa dos Banks para dar a possibilidade de harmonia e solução dos problemas.

Uma personagem principal que é coadjuvante, uma chata que é encantadora. Mary Poppins é a redentora da relação entre pais e filhos, da passagem da infância para a fase adulta, da combinação de sonhos com a dureza da realidade.

A Mary Poppins que a maioria das pessoas conhece é a do cinema. Ela tem pouca coisa a ver com a do livro. Talvez seja parecida somente até a hora do remédio das crianças (ops, rolou spoiler com mais de cinquenta anos para quem ainda não viu o filme). Até ali ela não sorriu, ela não brincou, ela é séria e disciplinadora. Depois, a aura Disney fala mais forte e a personagem vai acompanhando a doçura do filme. Os outros personagens também foram afetados.

A mãe, por exemplo, tem um descaso em relação aos filhos que não existe no livro. E faz campanha pelo sufrágio universal, que foi um pedido do próprio Walt Disney para dar apoio à causa das mulheres na época. Mas é principalmente o pai, tanto quanto Mary, que tem o perfil alterado. Exageradamente sério no início da história para se tornar quase uma criança no final dela. E tudo isto vem da (dificílima) negociação entre Disney e Travers para que o livro fosse para a tela.

O filme que conta a história desta produção tem um título ótimo: Saving Mr. Banks (pessimamente intitulado Walt Disney Nos Bastidores de Mary Poppins no Brasil). Pamela tentou redimir o pai no livro, a partir da magia da babá, mas é no filme que a redenção se dá por completo. Neste filme que conta a história da produção, há uma cena ótima, quando Walt Disney se dá conta do que está acontecendo e pede à Travers: “me deixe salvar o Mr. Banks. Me deixe resgatar o que há de melhor nele”.

Isto tudo sem contar a história pela busca da atriz para fazer o papel principal. No início, Walt Disney queria Bette Davis, mas a equipe insistiu com Julie Andrews. Walt foi ver um musical com Julie e voltou encantado. Pamela, que estava vetando tudo e todos (incluindo Dick Van Dyke), aprovou a escolha. Mas Julie Andrews, não queria aceitar.

Ela esperava ser confirmada no papel de Eliza Doolittle, na adaptação cinematográfica de My Fair Lady. Afinal, ela havia feito este papel no teatro com um imenso sucesso. O estúdio, no entanto, escolheu Audrey Hepburn e Andrews assinou com a Disney para fazer a babá. No final, os dois filmes viraram clássicos e as suas protagonistas encarnaram maravilhosamente os papéis.

Se cabe aqui uma informação de vingancinha, My Fair Lady foi a terceira maior bilheteria daquele ano. A primeira foi Mary Poppins, que ainda viria ganhar, anos depois, o título de “o filme mais amado de todos os tempos”.

Uma personagem que é de um jeito no livro e de outro no filme, mas é um sucesso nos dois. Uma história complicada de família que gera um livro que gera um filme com uma história complicada de produção. Mas em todas as histórias, reais ou não, uma redenção que vem a partir de Mary Poppins. É, Mary Poppins é a minha personagem favorita.

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