Resenha | O Progresso do Amor, de Alice Munro

Já progredimos muito em termos de conhecimento. Mapeamos estrelas, planetas, criamos vacinas, aviões, computadores. Estabelecemos sistemas sociais complexos, conceitos filosóficos intrincados. Ainda assim, a quantidade de coisas que não podemos explicar e conceituar ainda é imensa. Muitas dessas coisas nós reconhecemos e até certo ponto compreendemos, como a energia na Física. Ou como é o caso de Alice Munro: o amor.

Particularmente, acredito que jamais conseguiremos definir certas coisas com exatidão, há um certo determinismo aqui em reconhecer que determinadas coisas “são como são” e basta a elas ser. Especialmente o amor. Podemos ser taxativos com amor? Dizer o que ele é e o que não é, como ele deve ser, como deve se manifestar?

Em O Progresso do Amor, Alice Munro tece diversas histórias sobre amor, melancolia e o contraste do campo e a cidade: o interior bucólico e o “concreto dinâmico”. Mais do que isso, uma exploração que mostra que até mesmo no ambiente mais pacato, desenvolve-se a mais profunda e inesperada história. O amor, seja como for, é o elemento que conecta os contos.

Em nenhuma delas há uma declaração absoluta sobre o que ele é. Ele se contorce e se modifica a cada conto. Um amor que sente sempre saudade, um amor que sempre protege, outro amor que compreende. São muitas facetas e nenhuma delas é absoluta. Como a energia, até certo ponto reconhecemos e compreendemos, mas ainda não somos (se é que algum dia seremos) capazes de estabelecer um conceito único e definitivo.

Alice Munro é uma escritora talentosíssima. Uma escrita fluída e ao mesmo tempo densa. Não é incomum durante a leitura do livro sentir-se inundado pelos sentimentos dos personagens e pelo tom bucólico dos contos. Descobrir o que o personagem sente e entende-lo em seus momentos de silêncio, de introspecção e de recordações melancólicas. E só podemos entende-los por meio do que sentimos ao conhecer suas histórias.

Não há o que acrescentar ou denegrir, é uma coletânea que reúne contos excelentes escritos de forma magistral pela autora. A recomendação é ler e reler, a cada vez descobrindo algo novo ou que passou despercebido.

Nosso verdadeiro progresso é o contínuo desvendar do que é amor.


Por Lucas Nóbrega Lopes
exclusivamente para Versificados

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