Moradas

O Silêncio arranhou a porta da janela do meu quarto e me chamou. Numa voz sussurrada chamava pelo meu nome. É difícil ouvir o silêncio, mas eu acabei conseguindo sentir a intensidade da sua mudez entrando pelo meu ouvido.

Abri a janela e senti seu hálito. Cheirava a noite fresca misturada com poeira e medo. Estendeu sua mão escura. Um pouco receoso, lhe dei a minha e senti sua pele aveludada. Ele queria me mostrar suas moradas.

Me levou até uma sala fria. Só havia o barulho de alguns gemidos e frases de consolo. O Silêncio morava no interior de um corpo morto. Roupas, carne e ossos eram as paredes de sua morada. Lá dentro, vivia sua tranquila solidão, ouvindo-se a si mesmo.

Saímos apressados. O silêncio apertava minhas mãos com tanta força que senti um calafrio. O silêncio às vezes é muito forte. Chegamos a um quarto à meia luz. Alguém deitado de bruços, o rosto contra o travesseiro. Cabelos longos. Cheirava a medo e culpa. O silêncio me falou baixinho que morava naquele corpo constantemente invadido por outro, sem permissão, sem prazer, sem respeito.

Fiquei com tanta raiva que senti vontade de gritar. Mas o silêncio me interrompeu. Falou que não suportava gritos e que castigava aquele que o incomodassem. Me calei. Muito mais por medo do que por respeito. Pedi para irmos embora. O Silêncio saiu com muita calma, pisando com bastante cuidado.

E de repente começou a correr, apertando minha mão mais forte. Me mostrou tantas moradas. O Silêncio morava no escuro das Igrejas, no brilho dos olhos curiosos. Morava na casca das árvores centenárias e no jornal que cobria o mendigo com frio. Morava nas mãos que rezavam na sala de espera da UTI.

Morava em muitos lugares, ao mesmo tempo, mas sem o tempo. Não há tempo onde o Silêncio mora. Não existe passado, não existe futuro. Só existe o presente. Intenso.

Me levou de volta para o meu quarto. Mandou que eu me deitasse e em seguida deitou sobre o meu corpo.

Fiquei paralisado. Mudo. Ouvia apenas o nada e o tudo. Ouvia o hoje.

Eu era o silêncio.


Por Igor Gonçalves
Colaborador no Proalfa-UERJ, Articulador de Leitura na Semed Queimados, Professor de Redação no Projeto Enem São Vicente de Paulo. Ouve Caetano e Djavan em qualquer estado de espírito. Escreve por urgências

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