Quem são vocês?, um conto

Quem são vocês, hein? Me diz. Será que ao menos vocês sabem responder essa pergunta? Sou a prova viva do quanto interpretá-los é uma ciência que não formou um profissional se quer. E se tem uma coisa que não podem me acusar é de falta de tentativa, pois nós três sabemos o quanto tentei compreendê-los sem julgamentos, a ponto até mesmo de defendê-los para ambos (olha que ironia) e para os outros, mesmo sabendo que a opinião alheia tinha fundamento. Fundamento esse, que me recusava a enxergar. Até que cansei. Afinal, até os que relativizam tudo uma hora também se cansam de relativizar.

Em relação a você, Karoline, a princípio eu duvidei que você realmente fosse essa pessoa sonsa e dissimulada que eu estava começando a suspeitar que fosse. Ou talvez, eu não quisesse acreditar em todos os indícios que estavam na minha cara. Um lado meu ainda torce para que seja só falta de noção combinada com uma criação evangélica repressora e ignorante em vez de falha de caráter. Se for o primeiro caso, ainda tem conserto. Se for o segundo… Bem… Espero que não seja.

Quero que fique claro que apesar dos pesares, não quero seu mal da mesma forma que também não quero o dele. Sei do seu passado e mais ainda o quanto uma família desestruturada junto com uma educação com valores morais e princípios fracos ou distorcidos podem tornar o caráter duvidoso, mesmo que bem lá no fundo a essência seja boa. Espero de coração que esse seja seu caso.

Não ache que faltou empatia da minha parte, pois ambas sabemos o quanto tentei te dar um crédito, ouvir a sua versão dos fatos, conversar, te aconselhar… Fiz tudo o que estava ao meu alcance pra não desistir de você. Até mais do que isso. Já te considerava quase uma irmã. Só que cansei de ter que te botar contra a parede toda vez que precisava arrancar a “verdade” da sua boca, e nem sei se era tudo verdade mesmo.

Mas ok! Já tinha captado que vossa senhoria só revela a verdade sob pressão. Mesmo não satisfeita, não estava cega quanto a isso. Aí você me pergunta; se eu estava ciente disso, porque continuei insistindo em você? Não sei, talvez porque lá no fundo, eu ainda queria estar errada sobre você.

Recentemente, uma amiga me disse curta e grossa: “Você já sabe que ela é assim. A questão é; você está disposta a lidar com isso, sim ou não?” E eu estive, Karoline, eu estive. Mas tudo tem limite e o meu acaba de se esgotar.

Não pense que isso se trata apenas de ciúme e nada mais. Admito que isso piorou a forma como eu te enxergo (ou melhor, como não queria te enxergar), mas por outro lado foi bom porque assim pude te ver melhor. De qualquer forma, juro que não foi só isso. Imagino que você vai querer jogar toda a culpa em cima do ciúme, mas quem me dera que fosse apenas isso. A pior parte envolve só nós duas, ninguém mais.

O pior foi descobrir as coisas que você falava de mim, pelas minhas costas. A questão não é achar que eu era bi. Ser bi ou lésbica não é defeito nem desmerece ninguém. O problema foi supor que eu fosse uma estupradora, assediadora em potencial. Isso é o que mais doeu, pois mesmo que eu fosse realmente bi, nunca te forçaria a fazer algo contra sua vontade. Nunca!

Contou uma coisa pro namorado da sua “amiga” e outra pra mim. Pra ele, você disse que tinha medo de sair sozinha comigo, porque além de ser estranha, gostar de coisas esquisitas e ser uma mutante estilo X Men (depois você diz que eu que tenho a imaginação fértil demais…), ainda corria o risco de eu ser apaixonada por você e tentar te agarrar ou coisa do tipo.

E pra mim, você disse que ele que se ofereceu pra ir com a gente, depois de ver você confirmando presença no Facebook. Mas que você não queria que ele fosse por causa da namorada dele, ou melhor, “sua amiga”.(Se é que podemos chamá-la assim, não é mesmo?)

Falando nisso, você lembra que nesse dia você mesmo insistiu pra ir naquela festa comigo? Eu te chamei uma vez, você disse que não tinha dinheiro, eu entendi e fim de papo. Só que depois, você ficou dizendo que queria muito ir, mas que era uma pena não ter como pagar. Se lamentou tanto que fiquei com pena e me ofereci pra pagar pra você. Lembra disso ou apagou da memória também?

Só me tira uma dúvida? Se eu era tão assustadora assim, por que você me procurava tanto? Por que mandava mensagem dizendo que estava com saudade? Por que me elogiava? Eram elogios falsos? E principalmente, por que me perguntava toda semana se eu ia mesmo naquela festa e dizia o quanto queria ir?

Eu ainda paguei sua entrada, da mesma forma que já banquei você milhões de vezes depois e nunca te cobrei devolução. Nunca!

Por isso, o que mais me dói é sua ingratidão. E nem estou falando pelo dinheiro não, estou falando pelo valor emocional que tinha por trás dele. Afinal, tudo que fiz por você, fiz de coração. Porque eu me importava com você, mas descobri que você não dá valor a isso.

Além do fato de ser extremamente ignorante supor que se uma pessoa usa uma camisa de uma série sobre um assassino, então ela apresenta algum grau de psicopatia ou algo parecido. Aliás, seu ex era fã de Battes Motel e do Norman Battes? Sabia disso? Você sabe quem é o Norman, né? Enfim…

Sobre minhas mãos, você tem consciência que riu de uma pessoa que sofre com ansiedade? Você sabe como isso começou? Sabe? Vou te dar uma dica; criança de 5 anos, policiais interrogando e revistando sua casa, medo de ser perseguida na rua, ameaças e pai foragido. Consegue juntar o quebra-cabeça?

E isso é o que sei. Imagina o que ainda não sei sobre você. A quantidade de coisas que você fala ou já falou pelas minhas costas e que não faço ideia.

Sobre o Lúcio, você tem ideia do quanto é cruel provocar as pessoas se você não tem intenção nenhuma de ficar com elas? É como oferecer bala pra criança, esfregá-la na cara dela, mas quando ela tentar pegar, puxar a bala de volta.

E tudo isso por quê? Pra se sentir desejada e inalcançável ao mesmo tempo? Por pura questão de ego e pra aumentar sua autoestima de lixo? Olha onde sua insegurança te levou…

Você quer ser venerada por todos, homens e mulheres (afinal, não sou homem e também fui incluída nessa lista), pensa que todos são apaixonados por você. Mas será que não é só sua carência te pregando uma peça? Pensa nisso.

Quanto a você, Lúcio, o que mais me dói é você ter duvidado da minha palavra. Isso pra mim é algo muito sério. Não suporto que desconfiem da minha honestidade. E você ainda disse que se ficar com ela, não preciso me preocupar porque não vou ficar sabendo. Como alguém consegue sequer cogitar a possibilidade de ficar com alguém que foi escrota com ela um milhão de vezes? Só porque acha gostosa e sente atração sexual? Então, ter sido escrota não importa? Isso é um pensamento completamente vazio, Lúcio. Você está sendo vazio.

Ter dito que não ficaria com você por uma questão de altura, por causa do seu jeito grosso, estúpido e impaciente, porque você só anda de chinelo e tem um jeito de andar atrapalhado, desengonçado e sem postura, não foi suficiente pra você entender que o objetivo dela era apenas te provocar mas que JAMAIS ficaria com você? E você ainda foi capaz de dizer que a escrota era eu… EU!

Ela mesmo disse, exatamente com essas palavras; “Meu erro foi não ter tido coragem de falar na cara dele que não queria nada com ele.”

Sem contar, que mais tarde fiquei sabendo por você que seu andar é motivado por uma deficiência. Ou seja, ela riu e debochou de uma deficiência sua, da mesma forma que riu e debochou de um transtorno de ansiedade meu que foi motivado por um trauma de infância.

Diante disso, te pergunto de novo. Como você consegue continuar chamando pra dormir na sua casa e ainda se oferece pra pagar o almoço de aniversário de alguém tão ingrata e mau caráter quanto ela? Só te digo uma coisa; ACORDA! Antes que seja tarde demais.

Seus próprios amigos dizem que ela pode estar se aproveitando de você, porque tem interesse na casa e na piscina. Quando me falaram isso, eu duvidei e até a defendi. Afinal, considerava ela mais do que uma amiga, considerava ela como irmã. Mas agora, já nem sei se eles podiam estar certos sobre ela ou não. Não duvido de mais nada.

Meu conselho pra você, Lúcio, é (sem ironias) pra ficar atento, com olhos bem abertos. Te perdoo pela sua ingenuidade. Sei o quanto as pessoas podem te enganar facilmente. Mas mereço algo melhor, você ainda precisa amadurecer muito. É melhor eu cair fora enquanto ainda não me apeguei demais, não é mesmo? É melhor cortar pela raiz antes que vire amor.

Não vou guardar rancor de você como você deve estar pensando. Nem dela. De verdade. Não quero que nada de ruim aconteça a nenhum dos dois. Pelo contrário, desejo o melhor aos dois. Vou tentar guardar só a parte boa, que foram muitas também.

Só queria que você tivesse acreditado em mim!

De você, vou sentir falta dos beijos, dos abraços, do cheiro e da voz principalmente. Já te falei que foram uma das coisas que me fizeram sentir atração por você, né? Sem contar do seu jeito inquieto, ansioso e atrapalhado, que é tão parecido com o meu. Até do seu mau humor e do seu jeito meio Shrek vou sentir falta.

Aliás, vou sentir falta de todos os lados; do lado Clay, do lado príncipe da Disney(lembra que uma vez te falei isso?) e até do lado ogro. Já tinha me acostumado com todos os seus lados e aprendido a gostar de todos, cada um exatamente do jeitinho que é.

Dela, vou sentir falta das conversas, das confissões, das trocas de músicas, papos sobre séries e filmes, das mil horas no whatsapp, dos conselhos recíprocos (ou, pelo menos, achava que fossem), dos desabafos sobre assuntos polêmicos e familiares. Enfim, de tudo. Tanto coisa que a gente compartilhava… Tantos traumas e problemas não resolvidos…

No começo vai ser difícil, na verdade, já está sendo. Mas acredito que é o melhor pra nós três. Acho que no fundo, vocês dois se merecem. E eu preciso me desvencilhar disso tudo o quanto antes.

Pensem em tudo que falei, reflitam, analisem e relembrem tudo que aconteceu entre nós. O silêncio às vezes pode trazer mais respostas do que mil palavras e discursos.

Então, aproveitem o meu silêncio pra praticarem mais a empatia e entenderem onde vocês erraram. Quanto a mim, vou aproveitar o silêncio pra ser forte e seguir em frente, mesmo sem vocês do meu lado.

Foi bom conhecer vocês. Ou melhor, foi bom enquanto durou.

Adeus.
Ass: Alguém que queria muito estar errada sobre vocês.

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