Reescrevendo Machado de Assis?

Segundo a Folha de São Paulo, a escritora de infantojuvenis Patrícia Secco conseguiu patrocínio para “simplificar” as obras O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar. A notícia não foi bem recebida por boa parte do público leitor brasileiro e vale o questionamento: reescrever Machado de Assis é mesmo necessário?

Em resposta ao projeto, o professor da USP Alcides Villaça realça um ponto fortíssimo: “É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento”.

Diante disso, fica impossível não relembrar meus tempos de escola e estabelecer comparações. Fui apresentada às obras clássicas ainda nova. A leitura era obrigatória e fazíamos provas – que não exigiam respostas prontas e que nem de perto seriam facilmente respondidas por aqueles que lessem apenas o resumo na internet – para mostrar que conseguimos entender a mensagem do livro.

Claro que a leitura não era fácil, mas não era para ser. Machado de Assis e José de Alencar, assim como muitos outros, são marcas da história da literatura brasileira. Eles obviamente não escreveram a partir do vocabulário usado hoje, então é esperado que a leitura não seja tão tranquila quanto a de vários autores vivos e ativos. Surpreendente ou não, mesmo sem entender todas as palavras, era viável compreender o que a obra queria passar.

Sim, tínhamos dificuldades. Sim, muitos de nós – estudantes – acharam que tudo não passava de uma história chata. Entretanto minha turma não era feita só dessas opiniões. Como eu, muitos também gostaram bastante da história de José de Alencar, outros preferiram a de Machado de Assis e outros ficavam com Jorge Amado e ponto. A questão é que nós líamos e podíamos formar uma opinião acerca do texto original, avaliar o autor pela sua forma de escrever e tirar nossas próprias conclusões.

Eu, Camille, não sou a favor de “facilitar” nenhum livro, de nenhum autor. Como autora, odiaria que, um dia, meus textos fossem simplificados. Como leitora, acho impossível que essa mudança no texto não altere ou não fira o estilo do autor. Acho que a obra vai sim perder: conteúdo, singularidades, contexto. Não só isso, o aluno também vai perder: sua capacidade de entender textos mais complexos, pensar e opinar sobre eles; além da maior “dificuldade” em pegar um dicionário para ver o que uma palavra significa.

Logo antes de entrar para a faculdade de Letras, quando ainda cursava Artes Visuais, puxei uma matéria chamada Literatura Comparada com o professor, editor e autor João Cezar de Castro Rocha. Sem dúvidas, a matéria foi um divisor de águas para mim. Primeiro porque mostrou o quanto eu realmente gostava de literatura e podia gostar da faculdade que sempre quis fazer.

Segundo porque me fez voltar a ter vontade de ir para a faculdade. Eu queria estudar e sentia falta quando perdia ou não tinha uma aula. Mas, principalmente, porque ao pegar MacBeth, de Shakespeare, ele me ensinou novamente algo que eu nem sequer percebi que tinha esquecido. Ensinou-me a pensar.

Logo nas primeiras aulas cada vez que alguém lia uma fala eu ficava perdida. Já tinham se passado algumas páginas quando finalmente assumi que não estava entendendo nada. Pacientemente, ele voltou do início e esmiuçou a peça – sempre comparando com a versão original, inglesa. Após algumas (poucas até) semanas, fiquei surpresa ao notar que estava conseguindo entender sem precisar de maiores explicações.

Aprendi, em um semestre, a admirar Shakespeare e me questionei sobre quando li Romeu e Julieta e odiei. É bem possível que não tenha entendido boa parte do texto e como ninguém teve tempo de parar e explicar, ficou por isso mesmo. O que mais me surpreendeu, entretanto, não foi entender o que lia.

Foi como isso mudou minha vida em um todo. Agora, novamente capaz de pensar, eu avaliava, formava opiniões e tinha uma visão diferente de toda minha realidade. Literatura comparada me ajudou em todos os aspectos: acadêmico, pessoal e interpessoal.

O importante? Shakespeare não desceu ao meu patamar de entendimento e capacidade, ele me ajudou a desenvolver ambos para atingir o patamar dele. Por que deveria ser diferente com autores nacionais? Não deveria. Não acredito que temos que facilitar os textos para nossos alunos, temos que dar suporte aos nossos alunos até que consigam ler os textos por conta própria. Isto vai mudar a vida deles, a forma de lidar com ela e enxergá-la. O contrário, não.

Para encerrar, não nego que a história possa desenvolver um atrativo maior para eles se estiver em sua linguagem. Mas Machado de Assis não é para ser lido aos 8 anos – existem livros para essa faixa etária.

Por que simplesmente não usamos a escola para iniciar o aluno na leitura com livros escritos para a idade deles? Só então, aos poucos, ao longo dos anos escolares, tornando-o capaz de ler livros cada vez mais complexos até que, finalmente, possa ler e entender por si só Machado de Assis e José de Alencar? Aí sim vamos discutir literatura. Aí sim estaremos ensinando algo para a vida e – quem sabe – desenvolvendo o gosto deles por um mundo incrível – o da leitura.

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4 comentários

  1. LigiaColares em

    Achei seu texto bem reflexivo. Eu ainda não to com uma opinião mt bem formada sobre isso, mas seus pontos foram bem interessantes, porque nao escolher livros para a idade dele, ao invés de simplificar algo? Minha amiga ate me perguntou, o próximo passo vai ser simplificar a soma, subtração? O teorema de Pitágoras? Talvez essa atitude de imbecilizar os estudantes, as crianças, seja o principal fator para termos tão poucos pensandores hj em dia

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    1. Camille Labanca em

      Acho que é exatamente o problema. Temos que aprender a pensar, não simplificar e deixar as coisas mais fáceis. A vida não é fácil, por que a vida escolar seria?

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  2. Gabriela Rodriguez em

    texto genial, Camille!!! Mesma opinião sem tirar e nem por um detalhe

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