Resenha | 1984, de George Orwell

1984
Autor(a): George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 414
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

O romance começa com uma descrição crua e fria que imediatamente nos insere dentro daquele mundo cru e frio que George Orwell monta para nós com peças de seu mundo real. Aos poucos vamos caminhando por este turbilhão de informações novas ou reconhecíveis e vemos o medo de Winston Smith caminhar lado a lado com um desejo latente de rebelar-se contra uma ditadura tão rígida que mesmo uma expressão facial pode significar a morte.

Num mundo futurista (quando o ano de 1984 era ainda um desses futuros não tão distantes) em que não existe privacidade, porque cada residência é vigiada por um misto de TV e aparelho de vigilância chamado “Teletela”; em que a guerra é constante contra uma nação distante e que nunca se vê nem se ouve.

Em que O Partido controla absolutamente cada detalhe da vida de cada um, fornecendo os itens mais básicos para a sobrevivência (mesmo que isso signifique viver com uma escassez negada por todos); em que o cenário urbano divide os cidadãos em membros do partido e “proletas”; em que a própria linguagem é controlada pelo Partido com fim de inibir cada vez mais a capacidade de pensar; Winston Smith encontra alívio num relacionamento ardente e secreto com a jovem insurgente Julia.

Juntos, em seus esconderijos secretos e cuidadosamente escolhidos, longe de microfones e teletelas, podem se despir da imagem social que precisam representar. A rebeldia de Winston e Julia não consiste em levantar bandeiras ou pegar em armas, são rebeldes por simplesmente viver, com toda a significação que essa palavra possa conter.

São nas simplicidades íntimas que se confronta o governo, em coisas como ser expontâneo, comer uma boa barra de chocolate contrabandeada ou simplesmente entregar-se ao prazer. Aqueles que conseguem comportar-se ortodoxamente conforme O Partido são livres, mas mantidas constantemente numa prisão mental.

Entre os neologismos orwellianos destacam-se o “duplipensamento”, que significa a habilidade de saber de algo e ao mesmo tempo não saber, e o “pensamento-crime”, que é a traição mais temida, pois mesmo dormindo um homem pode afirmar que odeia o Partido e ser pego pela Polícia das Ideias.

Por fim, o amor e o louvor ao governo populista se consolida através da figura do Grande Irmão, a imagem de um líder carismático, implacável e sempre vitorioso, que concentra em si o próprio Partido. Foi da vigilância constante do Grande Irmão que extraíram o título de um dos reality shows mais famosos da atualidade, formando assim uma triste ironia. Por todo lado, nas ruas, dentro dos prédios, encontram-se cartazes com o rosto duro e os dizeres “O Grande Irmão está de olho em você”.

Os absurdos que Orwell nos pinta são simplesmente exagerações das verdades que já temos. Não são novidades em nossa realidade os governos que escondem os deslizes do passado, que alienam a população, que criam uma imagem carismática de liderança, que impõem um idioma como forma de controle de um povo, que cometem atrocidades desumanas contra aqueles que se opõem.

A obra de Orwell, que era um socialista, pode tanto retratar um ou outro governo por uma ou outra semelhança (que se transformam em diferenças por pura perspectiva) como também servir de entretenimento para o público que se diverte com distopias apocalípticas.

De fato, as distopias populares do séc. XXI tem longa dívida com George Orwell e outros autores do século passado que olharam para o futuro com menos esperança, como Antony Burguess, Ray Bradbury e Adous Huxley. A narrativa de Orwell nos presenteia uma leitura flúida porém sufocante. Este romance, sem dúvida, a mais ilustre obra de George Orwell e permanece espantosamente atual; recomenda-se ler em época de eleição.


Por Anderson Câmara
exclusivamente para Versificados

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1 comentário

  1. andy em

    Quero muito ler esse livro. Li A revolução dos bichos e amei, espero gostar desse também.
    Gostei da resenha.
    Abraços

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