[Resenha] A Arte de Ser Normal, de Lisa Williamson

A Arte de Ser Normal
Autor(a): Lisa Williamson
Editora: Rocco
Páginas: 346
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Quando eu peguei o livro e vi a sinopse “com diálogos engraçados e relatando situações cotidianas na vida de adolescentes, Lisa Williamson consegue abordar a delicada questão dos transgêneros de maneira leve, sem ser apelativa ou condescendente demais” confesso que fiquei com um certo receito, porque tive medo de ver transgêneros romanceados e sua história diminuída a “tipo de bullying que adolescentes sofrem no colégio”.

Não que os outros tipos de bullying sejam menos ou mais traumáticos, são todos odiosos, mas o problema é que a discussão de gênero é pouco abordada e já foi diversas vezes sabotada.

Você sabia que não existe só homem e mulher no mundo? E quando eu pergunto “você sabia” é para descobrir se você ignora ou desconhece. Bem, a partir de agora, se continuar lendo esse texto (e o livro depois) não poderá ignorar. De forma alguma.

Vamos lá, gêneros são amplos e eu vou colocar um esquema simples para facilitar:
1. Órgão sexual não determina o gênero;
2. Orientação sexual não é o mesmo que gênero;
3. Nem orientação nem identificação de gênero são escolhas. As pessoas nascem assim e isso é normal;
4. Pessoas podem ser cisgêneros ou transgêneros:
– cis: quando você se identifica com gênero atribuído de acordo com seu órgão sexual biológico;
– trans: quando você não se identifica com gênero atribuído de acordo órgão sexual biológico.

Se você nasceu com um pênis, e se reconhece como homem: você é um homem cis. Se você nasceu com uma vagina, e se reconhece como homem: você é um homem trans. Se você nasceu com uma vagina, e se reconhece como mulher: você é uma mulher cis. Se você nasceu com um pênis, e se reconhece como mulher: você é uma mulher trans.

Sobre orientação sexual, é outro papo. Isso depende de por quem você sente atração sexual, tipo: se você sente atração sexual por alguém que se identifica com o gênero oposto ao seu, logo você é hétero sexual. Caso contrário, é homossexual. Você também pode ser bissexual. Ou assexual.

Você pode ser o que quiser, é tudo isso é normal. Ex.: um homem trans que se relaciona com uma mulher cis é hétero. uma mulher trans que se relaciona com uma mulher cis é homo.

A partir daí, você vai entender melhor o mundo descrito em A Arte de Ser Normal de Lisa Williamson. De forma clara e em termos simples a experiência de descobertas e sob a visão de David Piper e Leo Denton, que alternam vozes nos capítulos, dois jovens adolescentes que carregam historias completamente distintas e em comum só tem o segredo que guardam.

David tem uma vida “boa”, mora em uma casa confortável e com seus pais, irmã mais nova e um cachorro chamado Phil. Tem dois melhores amigos, Essie e Felix e estuda desde a infância na Escola Parque Éden. Leo vive outra realidade, numa casa “caindo aos pedaços” com a irmã gêmea, com quem divide quarto e beliche, uma irmã mais nova, a mãe e seu eventual namorado da época, sofrendo com a ausência do pai.

David começa o livro contando sobre quando tinha 8 anos de idade e na hora de responder um simples “o que você quer ser quando crescer?” numa tarefa escolar, ao contrário os demais colegas de classe que aspiram em se tornar artistas, atletas e até astronautas, ele disse que queria ser uma menina.

Aos 14 anos, e com seu corpo crescendo mais do que deveria e da forma que não gostaria e, relata suas angústias e nos dá um pouco de aflição sempre que faz “a inspeção”, um tipo de fiscalização em seu próprio corpo, medindo centímetro por centímetro.

Outros momentos, ele nos encanta e faz os olhos encher d’água, como na noite que passa sozinho em casa, sem os pais e a irmã mais nova e aí sim, descobrimos o verdadeiro David, que não é David algum. Maior parte do tempo ele está contando os dias para o fim do ensino médio para se ver livre dos constantes ataques de bullying e do pavoroso apelido de Show de aberrações.

Leo é um mistério, após conseguir uma vaga no “colégio de gente rica” e surgir no meio do ano letivo causa alvoroço na tradicional escola. Ninguém sabe de seu passado, e ele faz questão de manter o suspense e a cara fechada, mantém (e até gosta, as vezes) do “medo” que causa nos outros e por isso consegue manter todos afastados. Esse é o plano, que falha, a primeira vez após se deparar com Alicia e da “amizade sob pressão” com David.

David, junto com seus dois melhores (e únicos) amigos Felix e Essie, se aproximam do garoto novo na hora do almoço e o convidam para fazer parte de seu seleto grupo (na verdade trio) de rejeitados. Leo nega.

David não aceita, mas o que desencadeia a amizade é quando Leo que para defender David dá um soco no nariz de Harry Beaumont, num dos garotos mais populares do colégio no meio do refeitório lotado. Como punição,vão para a detenção durante um mês. Nesse tempo eles se conhecem melhor, David se mostra um talentoso cartunista e Leo, um gênio da matemática.

Ensino médio, baile, montanha russa, meninas, meninos, paixões, beijo no armário embaixo da escada, problemas familiares e lágrimas. A Arte de Ser Normal tem tudo o todos nós achamos que conhecemos e conseguimos prever, o que é mentira e, por isso é surpreendente do início ao fim.

Amei o livro, mas senti falta de conhecer mais a parte psicológica dos personagens. Eles carregam historias muito importantes e as vezes isso passa um pouco batido. O que não é um problema, minha curiosidade é que fala mais alto.

Também senti falta daqueles diálogos internos e ver mais cenas que eles lutam, de fato, para manter seus segredos e em outros, ver mais vezes deles sendo livres, de fato. Mas ok, eu sou mais velha que eles e já entendo essa fase de adolescência e sei que tudo passa.

Queria mais descrições físicas deles para imaginar melhor e construí-los na minha imaginação, mas mesmo assim sei como são os olhos de Leo. Se ainda resta alguma dúvida: sim, eu recomendo. Muito. E faço um apelo, depois de ler, passe seu livro adiante e diga para a próxima pessoa que ler fazer o mesmo, “A Arte de Ser Normal” precisa ser lido por todos.

O livro é transmídia então vamos conhecer mais sobre gêneros?

Da minha introdução breve, pesquisem, eu recomendo as seguintes fontes:
. Canal das Bee
. Transviados

E pra você escritor (e/ou curioso) que quer aprender sobre como escrever personagens trans, vai rolar um minicurso virtual gratuito: escrevatrans.encontroirradiativo.com.br

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