[Resenha] A Costureira, de Kate Alcott

A Costureira
Autor(a): Kate Alcott
Editora: Geração Editorial
Páginas: 372
Avaliação: 4
Capa: 3.5 Diagramação: 3.5 Conteúdo: 5

Impossível não se emocionar com os acontecimentos.

A Costureira já tinha me despertado o interesse quando soube da história: será que seria possível não se apaixonar por um livro cujo background é nada menos que o Titanic? Quem se interessa um pouco além da história de Jack e Rose (que não, não estão no livro), e pensa em todo glamour da época, tudo que o navio significava e tudo que a tragédia dele gerou, com certeza vai se apaixonar pela história de Tess.

Tess Collins é uma empregada que carregava desde cedo o sonho de ser costureira. Sempre às ordens da classe A britânica, ela, em um impulso repleto de coragem, quebra o vínculo com a senhora que a emprega para partir junto ao navio mais falado de todos os tempos. O Titanic rumava para a terra das oportunidades: os Estados Unidos de Henry Ford e do movimento feminista.

Por um golpe de sorte, ela se vê encarando a admirável Lucile Duff Gordon, uma estilista extremamente conhecida – e valorizada – por seus vestidos incríveis com nomes estranhos e poéticos. Quando nota, já está falando diretamente com lady Duff Gordon, citando todas as qualidades que a tornam a pessoa certa para o emprego. Após observar um pequeno trabalho de Tess, Lucy se vê aceitando que a menina seja sua empregada.

Todavia os planos vão além de servir chás ou cafés, a jovem tem talento para desenhar (atenção pela preferência da palavra) roupas, e quem melhor que a conhecida e inabalável Lucile para ser sua mentora? O que nenhuma das duas esperavam, entretanto, é que quatro dias após zarpar, exatamente dia 14 de abril de 1912, o Titanic fosse colidir com um iceberg.

“Havia testemunhas e contradições demais; aquilo a deixara irritada. Um curtidor de couro dissera que os tripulantes haviam atirado para cima para impedir que os homens em pânico lotassem os botes, e um clérigo do Brooklyn insistira que houve completo decoro no navio, que não houve nenhum pânico.”
— Página 217

A viagem dos sonhos no navio que jamais afundaria encontra seu trágico fim, repleto de pessoas gritando em desespero, botes nem perto de serem suficientes para salvar todas as pessoas e o puro medo, envolto numa música às vezes animada tocada por homens que conheciam, e talvez até aceitassem, seu fim. Uma mistura de silêncio e barulho tornam a noite de mar calmo muito mais sombria, os gritos congelando e sendo levados para o fundo as águas. Crianças, homens, mulheres, esperanças, histórias, vidas sendo levadas para sempre.

A situação nunca é ruim o suficiente: o inquérito aberto nos EUA leva Lucile ao desgaste extremo, com uma provável decadência em suas mãos devido ao ocorrido no bote número um. Tess é fiel, mas quer saber em quem acreditar quando as versões colidem, o medo e o desespero se transformam em mentiras. O que de fato aconteceu no bote número um? O que levou o Titanic a afundar? Por que não haviam botes suficientes? Por que apenas um bote voltou para buscar sobreviventes? Quem eram os meninos salvos? Quem é Jim e Jack, e o que eles significam verdadeiramente para Tess?

“- Tess, tem tanta coisa que quero lhe dizer. – Ele falava depressa de novo. – A única coisa em que tenho pensado há dias é em construir uma vida nova neste país com você.”
— Página 281

Kate Alcott, pseudônimo da jornalista Patricia O’Brien, nos leva a 1912 para viver de perto a glória e a decadência das classes rígidas britânicas ao entrarem em contato com a liberdade estadunidense, o inquérito que se seguiu ao naufrágio mais comentado ha história. É impossível não se emocionar com os acontecimentos tanto quanto é impossível largar o livro quando se começa a ler.

A Costureira é daqueles livros que não sentimos as páginas passarem, abrimos na página 10 e logo estamos na 50, tão envolvidos que queremos ler o dobro disso antes de fazer qualquer coisa. Os personagens tão bem caracterizados são desenvolvidos a ponto de entendermos que não há ninguém exatamente bom ou mal, que a situação forma a pessoa, moldando-a sem que ela tenha tempo de pensar se seria ético ou não, certo ou errado, crime ou apenas desespero.

Quais pessoas podemos chamar realmente de heróis? Não só no livro, mas na vida em geral. As situações extremamente humanas nos mostram a reação de cada um, e o poder de julgamento duvidoso de quem não estava vivendo aquele momento. E como estas pessoas vão decidir o destino de inúmeras outras.

É incrível como Kate consegue explorar o clima extremamente tenso e, ainda assim, envolver o amor de forma tão inocente e carinhosa. Com tais características, qualquer erro – porque, sim, há alguns erros de digitação e, aos olhos mais atentos, até uma ou outra frase meio destoante para a época – passa a não ter tanto valor, se é que diante disso tudo podemos dizer que eles têm algum valor. Vale a pena ter na estante, reler em algum momento, pelas reflexões com as quais nos deparamos nas entrelinhas.

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