Resenha | A Fúria e a Aurora, de Renée Ahdieh

A Fúria e a Aurora
Autor(a): Renée Ahdieh
Editora: Globo Alt
Páginas: 336
Avaliação: 4.7
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 4

A Fúria e a Aurora é As mil e uma noites para jovens adultos numa narrativa com muito potencial

Após a morte da melhor amiga, Sherazade tem uma missão. Ela vai se tornar a próxima esposa de Khalid Ibn Al-Rashid, rei de Khorasan, e ficar viva por tempo suficiente para descobrir sua fraqueza e matá-lo. Ela vai ser a mulher que vingará a morte de tantas outras esposas. A história toda a cidade sabe, e teme:

Khalid se casa, visita sua esposa e, no dia seguinte, logo quando amanhece e os raios do sol aparecem no horizonte, ela é enforcada. Dizem que ele acompanha tudo, com prazer nos olhos e pronto para mais um ciclo. Odiado e temido por todos, ele tem apenas 18 anos e carrega nas costas um peso que pouquíssimos conhecem.

Os planos de Shazi começam bem, com uma carta na manga para a sua sobrevivência. Deixando o medo e o pavor de lado, quando o rei vai visitá-la, Shazi o intriga com uma história. Ao longo da noite, ela a narra de um jeito que o deixa prestando toda a atenção no que está sendo contado. O sol nasce e a história ainda não foi encerrada.

Se Khalid quer saber o resto, precisa deixá-la viver. É apenas mais um dia, como ele poderia se negar a isso, certo?

“Sei o suficiente para entender que você não pode controlar as ações dos outros. Só pode controlar o que faz consigo mesmo depois.”

A Fúria e a Aurora começa assim. Com capítulos relativamente curtos, somos envolvidos por dois tipos de história: a que está sendo contada por Renée Ahdieh e aquelas que Shazi conta ao rei. Khalid, por sinal, aparenta ser exatamente aquele que todos temem. Mas, é claro, nada é tão simples quanto parece.

Como qualquer pessoa, sob toda a aura escura, as atitudes insensíveis e a feição indiferente, ele é apenas um rapaz. Um rapaz que, muito cedo, precisou herdar um trono que não necessariamente queria. E as circunstâncias também não foram exatamente agradáveis. Quando temos a imagem de um rei impiedoso, nos mantemos à ela sem sequer pensar no que vem antes.

E é claro que é exatamente isso que é relevante aqui. Shazi, aos poucos, vai percebendo que algumas coisas são realmente estranhas. Ela continua firme em seu objetivo, mas, curiosa, quer entender tudo. Ela quer a resposta para a pergunta que todos fazem, inclusive nós, meros leitores: por que Khalid assassina todas as suas esposas?

Apesar de seus momentos com Khalid serem – na minha opinião – a melhor parte do livro, é impossível não se impressionar com as demais personagens. Jalal (primo de Khalid e general) e Despina (acompanhante de Shazi) são maravilhosos e vejo promessa de mais dos dois no segundo volume da duologia.

“Algumas coisas existem em nossa vida apenas por um breve instante. E nós as devemos deixar seguir para iluminar outro céu.”

Jalal claramente vê mais do que a superfície e entende o potencial do casal principal, enquanto Despina – engraçada, irônica e uma mulher muito forte – torce por Sherazade. Enquanto essas duas personagens, mais as principais, foram brilhantemente desenvolvidas e fáceis de a gente gostar e se apegar, há outras que não exatamente gostamos.

É claro que, na narrativa, isso faz até mesmo parte. Tariq, por exemplo, foi uma personagem que não me tirou um ar de simpatia. Paixão de infância de Shazi, ele tem na cabeça que precisa salvá-la – o que poderia ser lindo se, no fundo, ele quisesse a ver feliz em vez de apenas tê-la para si.

Explico: em vários momentos Shazi é deixada de lado para seguir as vontades de homens. E é claro que, de acordo com a época, lugar e costumes, isso é o esperado. Tariq, entretanto, assume uma postura de “eu sei o que é melhor para você e não me importa o que você acha” que me irrita mais que qualquer ação idiota de Khalid.

Pensando nisso, achei o final totalmente desnecessário. A lógica não fez sentido, as personagens me deixaram com raiva e consegui ver muitas saídas para a situação que se passava. Ele, entretanto, deixa um baita gatilho pro segundo livro, que nos faz morrer de curiosidade.

“O pior tipo de mentira… Aquela cheia de boas intenções. Aquele tipo que os covardes usam para justificar suas fraquezas.”

Para mim, os únicos dois pontos realmente negativos da narrativa estão no final e em algumas histórias. Ainda que muita gente de fato tenha gostado das pequenas narrativas que estão no meio do livro (e com total sentido), elas foram um pouco massantes para mim.

Nem por isso A Fúria e a Aurora é menos forte. As personagens, em geral, são bem desenvolvidas e interessantes e gosto muito de como a história é narrada. Renée Ahdieh não se prende muito à descrições dos lugares e da magia que eles guardam, então vamos descobrindo ao longo da leitura e isso nos deixa mais presos ao que está sendo contado.

Sem dúvida, é um livro com muito potencial – e de fato cumpre o que promete. E, honestamente, mal posso aguardar pelo segundo volume!

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