Resenha | As Portas da Percepção e Céu e Inferno, de Aldous Huxley

As Portas da Percepção e Céu e Inferno
Autor(a): Aldous Huxley
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 160
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Aldous Huxley (1894-1963) não poderia ter atribuído melhor nome a sua obra As portas da percepção, datada de 1954.

A obra é seguida de Céu e Inferno, além de apêndices fundamentais para a compreensão global do texto e do pensamento do autor. Importante destacar a data da primeira publicação do texto, pois trata-se de uma obra visionária, que aborda assuntos comuns a nós e que nos coloca em cheque a todo momento e em quase todas as discussões sobre o tema “consumo de drogas”; e é sobre isso, em forma de ensaio, que Huxley disserta em As portas da percepção.

Atentei para o título do livro pois, se o analisarmos atentamente e apreendermos sua ideia principal, a obra nada mais faz do que abrir portas para outras percepções sobre o uso de alucinógenos que, em primeira instância, “alteram o estado ordinário da mente”, para usar as palavras do autor.

No texto, Huxley relata a experiência que teve ao engolir quatro décimos de um grama de mescalina, um componente químico capaz de deixar a “qualidade da consciência mais profundo que qualquer outra substância no repertório dos farmacologistas” e, entretanto, “ser a menos tóxica de todas”.

A mescalina é o princípio ativo do peiote, uma raiz cultivada e utilizada nas tribos do México para se chegar ao divino; de acordo com Artaud, em D’un voyage au pays des Tarahumaras, os índios Tarahumaras usavam o peiote, em doses adequadas para, assim, estabelecer contato com a divindade deles; em suma, o peiote facilitava a relação deles com o Transcendente. Vale destacar que esses dois autores foram os únicos dos que li que lançaram um olhar sensato sobre a utilização de substâncias “enteógenas”, que liberta o homem de seu estado ordinário e eleva-o a Transcendência.

Huxley procurou embasar cientificamente todas as suas experiências e também as alheias; nota-se um enorme conhecimento do mundo da biologia, da anatomia e das artes para fundamentar sua ideia e sua experiência a partir do uso da mescalina.

O autor inglês tem uma visão geral do mundo, ressaltando a ascensão do capitalismo, dos problemas sociais, defendendo a hipótese de que o homem moderno quer se libertar desse mundo limitado (daí citar exemplos do álcool e demais drogas); ele dá razão para quem procede de tal forma, pois a maneira como vivemos, para ele, nos limita ver as coisas estão à nossa frente de modo tal qual elas não são.

Fundamentando cientificamente a ação da mescalina e do ácido lisérgico (LSD) no organismo, Huxley argumenta que “o anseio de transcender a individualidade autoconsciente é um dos principais apetites da alma”. Vale dizer que Huxley não aprova o uso deliberado e desordenado de princípios ativos capazes de alterar o estado ordinário da consciência; desde o início, ele fez questão de ressaltar a dose ingerida, além de defender que é fundamental para o usuário ou aspirante a usuário estar em bom estado de saúde e com a mentalidade correta. Dessa forma, princípios ativos como a mescalina e o LSD levaria o homem a outras percepções sobre o universo à sua volta, desde um vaso de plantas na janela até um carro estacionado na calçada.

Em Céu e inferno, Huxley aponta para os efeitos negativos do uso da mescalina; compara esse uso a surtos de esquizofrenia, nos quais o doente se vê enclausurado e com medo da própria consciência. Foi o que o próprio autor relatou em determinado momento durante o período de uso da droga, momentos nos quais ele acreditou não ser capaz de lidar com uma consciência maior e mais ampla do que a que ele estava acostumado.

Esse pesadelo a que se chega a partir do consumo de alucinógenos não é gratuito; para o autor existem causas para que se chegue a esse estado infernal, que são “o ódio, a raiva e a malícia”. Nota-se que, além de atentar para a dosagem ingerida, o autor preocupa-se com estado físico e mental dos usuários; logo, o uso não deve ser deliberado. Céu e inferno consta de oito apêndices que complementam as ideias do texto; são outras experiências em que é possível alterar o estado da mente, por exemplo, o jejum e a luz estroboscópica.

O texto torna-se ainda mais interessante a partir da leitura do posfácio, de Sidarta Ribeiro. Nele conta-se que, momentos antes de sua morte, Aldous Huxley solicitou que fosse injetado em seu organismo 100 microgramas de LSD. A esposa do autor comentou que ele “assumiu um semblante muito belo e morreu”.

Não é à toa que Huxley se tornou um dos gurus da geração psicodélica da década de 60, lançando um novo olhar sobre o consumo das drogas; um olhar libertador, sobre elementos e objetos que sempre fizeram parte de nós, mas que as exigências do mundo moderno não nos permitiram perceber e fitar.

A leitura, tanto de As portas da percepção/Céu e inferno, quando do texto de Antonin Artaud sobre os Tarahumaras, podem permitir uma reviravolta nos debates sobre o consumo de drogas no país, sobre as consequências e possíveis benefícios. Importante dizer: muitos dos relatos citados no ensaio o leitor provavelmente não compreenderá, a menos que esteja sob efeito da mescalina e atente-se para os mesmos objetos (ou não) que Huxley. Leitura mais do que recomendada!

Resenha por Thiago Marques
exclusivamente para Versificados

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5 comentários

  1. NIZETE RIBEIRO em

    Não conhecia a obra nem o autor. Não sei se me arriscaria nessa leitura, não me senti atraída. Quem sabe mais pra frente. Mas, sua resenha está impecável e bem detalhada. Parabéns!
    Abraço
    Ni
    Cia do Leitor

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    1. Camille Labanca em

      Ele escreveu Admirável Mundo Novo, acho que é o mais conhecido dele (:

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    2. Thiago Marques em

      Agradeço pela atenção! Espero que um dia leia a obra, é excelente e realmente abre portas para novas percepções. Ótimo investimento de tempo!

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  2. Monalisa em

    Nunca li nada do Huxley! Tenho aqui “Admirável Mundo Novo” para ler. Vou começar por esse, já engatando em As Portas da Percepção. Você me deixou bem animada pra leitura!

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    1. Thiago Marques em

      Também estou com Admirável mundo novo na prateleira, me chamando todos os dias pra leitura. Mas como ainda tenho algumas coisas na fila, decidi esperar mais um pouco pois, até mesmo pela leitura de As portas da percepção, sei que será um livro que demandará tempo para leitura, análise e reflexão. Fico feliz que a resenha tenha te animado, e repito: leitura mais que indicada!

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