Resenha | Caviar é uma ova, de Gregorio Duvivier

Caviar é uma ova
Autor(a): Gregorio Duvivier
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 182
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Gregorio que me perdoe, mas admito que esperava menos política. Caviar é uma ova reúne crônicas escritas desde 2013 e, naturalmente, passa por toda a situação de crise (política e econômica e porque não enfiar um social aí no meio) que o Brasil vem enfrentando.

Eu sei, eu sei, é um tema necessário. Se estamos falando de crônica, escrita no Brasil, como não falar sobre esses assuntos? A crítica não vai para o texto, nem a forma como ele foi escrito, apenas para o cansaço de ser final de 2016 e ter a certeza de que a coisa ainda vai piorar muito antes de melhorar (cadê o fim do poço?).

Esclarecida minha insatisfação com a política, podemos focar na forma como o assunto foi tratado. Permeado por uma ou outra crônica que fugia ao tema — caso de Estágios do Assalto, com a qual rolou uma identificação que ninguém no mundo é capaz de fugir, e Ator e Autor, que me fez pensar “é isso!” ao ter o último parágrafo — Caviar é uma ova traz o melhor do humor e crítica de Duvivier para um livro.

A cerimônia do adeus traz amores desajeitados de infância à tona para falar sobre desamores atuais. Seguido de Sábado, para traduzir em palavras a impossibilidade de pegar um livro para ler sábado à noite. E continua com Capricha no chorinho para falar de como a linguística brasileira pode até ser complicada, mas funciona que é uma beleza (e vale O sequestro das palavras para complementar o pensamento).

“Tem uma hora — e dizem que essa hora sempre chega — que para de doer. A parte chate é que, até parar de doer, parece que não vai parar de doer nunca.”

Lembrar de esquecer descreveu o dia a dia dele, e também o meu, de um jeito espetacular — ah, o conforto de saber que tem alguém que entende o que é passar o dia lembrando das coisas que esqueceu até quando não as esqueceu; e que complementa o Vergonha paralela.

Álvaro, me adiciona é uma crítica e uma realidade que todo mundo vive (e faz), seguido de Social das redes sociais pra, diga-se de passagem, até conhecer uma rede social nova.

Até que a morte nos separe ainda mais veio em momento perfeito, e traz Jaime e Ligia — personagens, para deixar claro — numa situação de comemoração honesta. Dúvidas de um ignorante nos faz questionar se, de fato, ser ignorante não é a melhor opção.

“Desconfio que o que mais faz falta nesse Brasil tão cheio de certezas é um punhado de dúvidas.”

Permissão para sonhar traz a poesia de uma sociedade democrática — imagine só se fosse real! O que é que ele tem mostra uma versão sobre aceitar as diferenças, independentemente de quais sejam. E, dentre muitas crônicas, Desculpe o transtorno, preciso falar da Clarice encerra o livro.

Direto, curto, rápido de ler e honesto, o livro de Duvivier me conquistou mais uma vez. Diferente das outras, foi menos pela poesia (e, perdoe, mas vejo poesia em tudo que gosto) dentro das crônicas e mais por ter a realidade exposta na minha cara. De vez em quando isso é necessário para acordar — até porque o Gigante voltou a dormir.

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