Resenha | Cheio de Charme, de Marian Keyes

Cheio de Charme
Autor(a): Marian Keyes
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 784
Avaliação: 4.8
Capa: 5 Diagramação: 4.5 Conteúdo: 5

Cheio de Charme se inicia com a notícia de que Paddy – um homem lindo, maravilhoso e cafajeste – se casou. E o problema real começa quando quatro mulheres diferentes, que de alguma forma já tinham se envolvido com ele, veem esta notícia que interfere na vida de cada uma delas. O que, afinal, há por trás de cada caso?

Primeiramente vem Lola, que descobre a notícia pelo jornal e não entende nada. Como assim seu namorado acabou de se casar? E não é com ela?! Lola, então, precisa se ocupar em sair da tristeza – afinal, gostava dele -, fugir dos boatos e de repórteres que cismam em espalhar mentiras (e verdades) sobre a relação que ambos tiveram e manter sua carreira profissional decente apesar de seus clientes ficarem com um pé atrás, já que se preocupam de os boatos serem reais e a estilista tão competente ser, na verdade, uma drogada triste.

Já Grace, uma jornalista, que conheceu Paddy (e não consegue esquecê-lo) apesar de, agora, namorar Damien, um homem que foge ao tipo “perfeito” descritos em livro chick lit. O fato de sua tia ter câncer de pulmão leva Grace e sua família – incluindo o namorado – a tentarem parar de fumar; como se isso não fosse mais que o suficiente há a notícia sobre o casamento de Paddy, ela tenta falar com Lola para descobrir mais sobre essa história deles serem namorados e não consegue nenhum sucesso.

Para Marnie as coisas não são como aparentam ser. Sua vida com o marido e filhas perfeitas talvez não seja como todos esperam. Melancólica, Marnie não é feliz. Seus motivos são tantos que ela nem se dá conta da situação de alcoolismo em que está inserida, ainda mais quando este aparenta ser um escape para sua vida “tão ruim”.

Alicia, a futura mulher de Paddy, não tem uma beleza chamativa e sua auto-estima não tem muito de alta, apesar de ter sido convencida que todos sentem inveja dela. Afinal, por que não sentiriam? Ela é simplesmente a mulher de um político conhecido e, bom, lindo! Quem não iria manter (e mostrar) para todo mundo essa incrível conquista? Talvez ela não tenha recebido treino suficiente para fazer isso direito…

Marian Keyes se supera neste livro, aplicando uma dose certa de sarcasmo e realidade, uma crítica nas entrelinhas. De fato é um livro agradável de se ler, que prende a atenção e faz com que mais que 700 páginas (ufa!) sejam lidas rapidinho.

Crítica
Contém (muitos) spoilers.

Marian Keyes tem a característica notável de em todos os livro criticar alguma coisa da sociedade. Para olhos desatentos, suas histórias podem parecer meras, bom, histórias. Mas basta um pouco de atenção para notar que há um pouco mais ali.

Talvez por isso ache suas histórias um tanto quanto lentas para ler, mas que sempre valem a pena ao chegar ao final delas. Cheio de Charme traz o tema da violência doméstica como principal. O personagem Paddy De Courcy é um político que tem um histórico de mulheres incrível – além de serem muitas, todas são bem diferentes uma da outra. Entretanto, todas elas tem algo em comum. Uma marca na mão. De um cigarro apagado “acidentalmente” no lugar errado. A história, porém, é baseada na vida de quatro mulheres que foram afetadas por ele.

Lola trabalha escolhendo roupas para outras pessoas, entende do assunto e é boa nele. Ao receber a notícia de que Paddy, seu namorado, vai casar, sua vida muda drasticamente para um estado deprimido. Esse a leva para uma cidade de interior onde acaba por fazer muitos amigos. Por estar “desempregada” é convencida a tentar um seguro desemprego, onde encontra Noel, um cross-dresser que usa a profissão dela para conseguir roupas de mulher nos tamanhos necessários.

Como se não bastasse isso, acaba sendo formado um grupo que se reúne uma vez por semana para assistir filmes e discutir assuntos mulherzinha. É num desses encontros que descobre o amor de sua vida – que não é mulher, mas às vezes gosta de se vestir como uma.

Lola, por amar Paddy, demora para notar que o que ele fazia não era questão de amor, era violência. Criando um medo que a impede de ir à polícia. Será que, mesmo se fosse, teria resultado? Afinal, apesar disso, ela o amava.

Grace tem um namorado perfeito, apesar da relação não ser nos moldes costumeiros da “relação perfeita”. A marca que Paddy deixou é a mesma que marca sua infidelidade e o fim de um relacionamento que é baseado não em sexo ou segundas intenções, mas sim no amor. A questão, para ela, é que admitir que tinha sido vítima de uma violência, era admitir sua culpa – e não poder culpar outra pessoa.

Marnie, irmã de Grace, é depressiva. Alcoólatra, ela se nega a crer que sua família perfeita vai a deixar por causa de umas “poucas bebidas”. Sua baixa auto-estima é o que a faz perder tudo, quase acabar com a própria vida. É preciso que ela confronte Paddy para saber que não é, e nunca foi, a única. Assumir que é alcoólatra e procurar por ajuda, para reconquistar tudo o que acabou por perder.

Alicia é a mulher de Paddy – que apesar de ter sua carreira política dada por encerrada devido a um plano marcado pela derrota e pela vitória de todas as mulheres que de alguma forma se envolvem na violência doméstica – e a próxima a ser marcada, abusada e ver que De Courcy não é o homem perfeito que ela esperava que fosse.

O mais interessante é que a história inclui bom humor, uma organização dos textos brilhante e assuntos delicados utilizados na medida certa. Prende pelo que é, pelo conteúdo que tem. Marca o fim de uma literatura “mulherzinha fútil” e parte para algo original, que merece uma atenção extra e uma leitura atenta.

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