Resenha | Estragos, de Fernanda Young

Estragos
Autor(a): Fernanda Young
Editora: Globo Livros
Páginas: 216
Avaliação: 4.7
Capa: 4 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Fernanda Young sempre me chamou a atenção. Nunca soube exatamente o quê nessa mulher tão excêntrica e talentosa fazia eu me sentir inspirada de repente. Talvez por ela me remeter aos personagens do Tim Burton, talvez por ela ter um jeito de falar tão confuso e ansioso quanto eu, sempre atropelando as palavras e se enrolando cada vez que se esforçava para dar coerência ao seu discurso, sem saber que já era absurdamente coerente, mas de uma maneira tão única e tão dela.

Talvez por sentir uma atmosfera de inadequação ao redor dela. Ou talvez, por enxergar nela a característica que mais admiro em qualquer pessoa; a autenticidade de se assumir quem é ou quem se busca ser, independente do medo que possa sentir do julgamento alheio. Seja lá por qual motivo for, tem algo nela que sempre me soou familiar, inexplicavelmente.

Lendo sua coletânea de contos, intitulada de Estragos e publicada anos após ter sido escrita, tive mais uma vez essa impressão de familiaridade com ela, com seu estilo, e com seu trabalho em geral. A mulher, além de escritora, é também atriz, apresentadora, roteirista, ilustradora e mãe nas horas vagas e não vagas. Tudo isso dentro de uma mulher só. Tudo isso dentro dela, Fernanda Maria Young de Carvalho Machado, ou apenas Fernanda Young, como é nacionalmente conhecida.

Em Estragos, a mente por trás de Os Normais, Os Aspones, Minha Nada Mole Vida, dentre outras séries nacionais de sucesso; apresenta ao leitor uma versão mais jovem de si mesma. Uma escritora tão talentosa quanto a que conhecemos, mas um pouco mais insegura e até um pouco preguiçosa, eu diria. Apesar de seu notável esforço em criar algo de valor. Mas nada que o tempo não justifique, afinal estamos falando de uma Fernanda que ainda não tinha amadurecido sua escrita. Uma Fernanda no auge da juventude.

Quando ela escreveu esses contos, tinha apenas 16, 18, 26 anos no máximo. Ainda estava procurando seu estilo, tentando se encontrar tanto na vida quanto na literatura, buscando influências que servissem de referência e principalmente, lutando contra sua dislexia ao insistir na arte da escrita.

Como a própria diz, não foi fácil, nunca foi e jamais será. Porém, o que importa é o quanto cada um está disposto a insistir naquilo que faz sentido para si. Escrever, assim como a maioria das coisas na vida, é um árduo exercício de teimosia. Só teima quem realmente quer.

Da mesma forma, o leitor também tem sua cota de sofrimento. Mesmo que a linguagem seja aparentemente simples e rápida de ler, nada é tão simples quanto parece. Ter uma leitura fluida não significa que seja de fácil compreensão, pois palavras são só palavras, o que importa mesmo é que está por trás delas.

Ou seja, seu subtexto, a intenção que o autor esconde para o leitor esperto desvendar. Parafraseando Fernanda Young: “O resultado pode parecer simples, mas nada num livro é fácil. Pra ninguém.”

E isso fica claro em Estragos. A maioria dos contos são curtinhos, com exceção de 30 Milhões de vezes, A criada que lia Bukowski e Hélices (esse, na minha opinião, o melhor da coletânea). Têm uma linguagem tranquila, dá pra serem lidos rapidinho, sem muito esforço na superfície. Mas como já expliquei, só na superfície mesmo. Porque são muito mais densos e profundos do que podem parecer analisando superficialmente, numa primeira leitura.

Sem contar que a questão da pouca idade e falta de experiência com a escrita também influenciam muito, já que em alguns contos dá pra perceber que isso pode ter atrapalhado um pouco o desenvolvimento das histórias. A falta de confiança naquilo que fazemos prejudica nossa capacidade de conduzir e se aprofundar nas coisas.

A falta de fôlego, como a Young diz, acredito que também seja algo típico da idade e que com o tempo, maturidade e certeza do que queremos vamos aprendendo a insistir mais, se isso for importante pro nosso aperfeiçoamento. Talvez quanto mais velhos ficamos, mais chatos, perfeccionistas e dedicados nos tornamos. Ou pelo menos, assim espero.

Como exemplo, cito alguns contos da coletânea; Hélices, Conselhos, Inspiração, Eu desconfio que e Sirva mais um copo de vinho. Todos esses tinham potencial pra serem maravilhosos, mas acredito que todas essas questões inerentes à pouca maturidade acabaram dificultando um pouco. Os contos são densos, criativos, reflexivos e ótimos do mesmo jeito, porém, poderiam ser ainda melhores se fossem escritos pela Fernanda de hoje, mais madura e segura de si mesma.

Em contrapartida, alguns traços da Fernanda atual já são visíveis em Estragos. Sua rebeldia, excentricidade e personalidade forte se contrapondo com sua inibição, introspecção e postura analítica já podiam ser vistas em alguns contos e personagens da jovem Fernanda Young. Afinal, tem coisas que o tempo não muda. Só reforça.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook