[Resenha] Fragmentados, de Neal Shusterman

Fragmentados
Autor(a): Neal Shusterman
Editora: Novo Conceito
Páginas: 320
Avaliação: 4.7
Capa: 4 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Inquietante e muito bem escrito.

Fragmentados é pautado em uma sociedade na qual as pessoas são separadas quase que por sua utilidade. Se elas forem mais do que se espera que sejam, elas têm o direito à vida. Caso contrário, se não atingirem objetivos pré-estabelecidos ou forem encrenqueiras, elas são fragmentadas.

Isso significa que, até os 18 anos, elas podem ter seu corpo picotado e dividido para outras pessoas numa espécie de doação de órgãos não voluntária. Você é míope? Não tem problema, checa se está apto a fazer um transplante. Seu coração ou pulmão estão ruins? Temos alguns para você. Perdeu a mão, a perna, o braço? É possível adquirir novos membros.

A questão é clara: nenhuma das pessoas enviadas para a fragmentação estão mal de saúde, ou morreram e escolheram doar os órgãos bons. E quando um encrenqueiro (Connor), uma tutelada pelo estado (Risa) e um dízimo (Lev) são enviados para a fragmentação, seus caminhos se cruzam. Fugir é uma questão de sobrevivência.

O livro de Neal Shusterman me lembra um pouco a história do filme Não Me Abandone Jamais, mas as coincidências (e não estou discutindo se um copiou o outro, pois realmente não me importo) terminam com a fragmentação. No romance distópico, Neal trabalha as personagens de forma incrível – é possível ver, já neste livro, o quanto elas foram levadas a amadurecer rápido, e o quanto souberam se adequar às situações.

Fragmentados é divido em partes e a maioria de seus capítulos são curtos, tornando a história muito mais empolgante e tranquila de ler. Mais que isso, cada capítulo é contado por uma personagem, podendo ser – e principalmente sendo – Connor, Risa e Lev, mas também incluindo outras sem nome ou conjuntos (como por exemplo o capítulo das multidões). A narrativa é sempre construída em terceira pessoa, focando em pontos estratégicos dos acontecimentos.

Sem dúvida, o livro me conquistou e estou ansiosa pela continuação. Entretanto, admito, não foi amor à primeira vista: os capítulos introdutórios são exatamente me empolgavam, ainda que reconhecesse sua importância. Não entendia para onde a narrativa se encaminhava e fiquei receosa de que toda ela fosse uma fuga desenfreada, com muita ação, mas pouco envolvimento das personagens.

Da metade pra frente, todavia, foi impossível parar de ler. Quando Risa e Connor se aproximam e formam uma equipe, ou quando novas personagens entram e recebem atenção. Quando vemos com clareza o que acontece tanto com quem é fragmentado (e que cena forte!) quanto com quem recebe a “doação”. É intrigante e intenso o tempo todo.

Ainda mais quando a tensão que se cria é de toda uma sociedade de, digamos, renegados. Adolescentes que não teriam para onde voltar, mesmo se tivessem a chance. Adolescentes que são meros objetos para pessoas privilegiadas. Neal é surpreendente, escreve muito bem e, no final da leitura, entendi porque essa série é tão bem falada. Ela merece cada elogio.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook