Resenha | Fraude Legítima, de E. Lockhart

Fraude Legítima
Autor(a): E. Lockhart
Editora: Seguinte
Páginas: 280
Avaliação: 4.7
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 4

Se Jule Williams pudesse ser descrita em uma palavra, esta palavra poderia ser “adaptável”. Órfã, perdeu os pais quando ainda era bem nova e foi obrigada a morar com a tia, com quem não criou um relacionamento amoroso, carinhoso ou especial em algum nível.

Sendo a mulher forte que é, entretanto, ela decide fazer suas próprias regras. E não medirá esforços para melhorar sua situação. Quando Imogen Sokoloff aparece na sua vida, Jule ganha todas as chances de ter tudo o que nunca teve: roupas, anéis, viagens e experiências… e uma melhor amiga. Pelo menos era nisso que acreditava.

Imogen tem seu jeito particular de ver a vida. Igualmente órfã, foi adotada por uma família muito rica. Seu pai está doente, e sua mãe deposita nela todas as esperanças de uma vida grandiosa. Só que não é exatamente isso que Imogen quer.

Ela tem dinheiro para viver no luxo e bem, faz amigos com facilidade e ama literatura. Odeia que mandem nela, então trabalhar não está nos seus planos, assim como voltar para a faculdade. Parece que ela encontrou em Jule exatamente a amiga que precisava.

Nossas piores ações nos definem? Ou somos melhores do que as piores coisas que já fizemos?

Narrado de trás para frente, Fraude Legítima nos deixa completamente perdidos nos primeiros capítulos. Não sabemos quem Julie é, o que Imogen representa e qual a importância das demais personagens. Apesar de ser uma estratégia bastante interessante, acredito que foi ela que tornou um pouco mais difícil eu me apegar ao que estava sendo contado.

E. Lockhart não perde tempo tentando aprofundar suas personagens, não conhecemos seu passado para além do estritamente necessário e formamos uma imagem totalmente baseada nos detalhes que são contados primeiro. O mais brilhante disso é que, ao longo da leitura, vamos naturalmente desconstruindo nossas visões, tentando criar novas.

Nenhum capítulo passa em branco ou é desnecessário, algo primordial quando se tem um livro com essa estrutura e se quer deixar o leitor minimamente preso à narrativa. Como já sabemos o que acontece no depois, trabalhar o antes de forma com que ele faça sentido exige que informações sejam liberadas e virem nosso mundo de cabeça pra baixo o tempo todo.

Manter a expectativa em cada capítulo é um trabalho difícil, mas muito bem executado em Fraude Legítima. O final, como era de se esperar, volta ao primeiro capítulo do livro e encerra a narrativa de forma surpreendente que, pelo menos para mim, mudou novamente meu conceito sobre as personagens principais.

Ficou imaginando se estava sendo ela mesma. Se podia continuar sendo ela mesma. E se alguém podia amar a pessoa que ela era.

Para além de toda essa estrutura e escrita exemplar, dois questionamentos presentes no meio da narrativa me chamaram atenção. E. Lockhart deixa claro que ninguém é inteiramente bom ou ruim – mas, afinal, o que nos define? Nossos acertos ou erros? Nossas piores ou melhores ações? E, diante disso, quem realmente somos?

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