Resenha | Guia Astrológico para Corações Partidos, de Silvia Zucca

Guia Astrológico para Corações Partidos
Autor(a): Silvia Zucca
Editora: Suma de Letras
Páginas: 360
Avaliação: 4.8
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 4.5

Abordar a astrologia é sempre complicado, pois se de um lado existem os céticos que a tratam como mera bobagem sem fundamento científico, de outro, tem aqueles que deixam sua paixão por ela beirar o fanatismo. Então, como encontrar um equilíbrio entre esses dois extremos sem desrespeitar a crença dos outros?

Essa é a pergunta que o leitor de Guia astrológico para corações partidos, da Silvia Zucca, se faz o tempo todo conforme vai acompanhando os dilemas de Alice, protagonista da história.

Alice é uma libriana com ascendente em leão e lua em peixes (apesar dela ter descoberto seu lado leonina só no final da trama) que sonha em encontrar o amor, mas sempre acaba se decepcionando e sofrendo várias desilusões no campo amoroso. Diante disso, conhece Tito, um ator gay especialista em astrologia, que afirma com absoluta certeza que a culpa do eterno inferno astral de Alice são os trânsitos astrológicos. Afinal, segundo ele, é um péssimo momento para ser de libra.

De início, ela desconfia do discurso místico de Tito. Porém, com o passar do tempo e com a aproximação dos dois, começa a adotar a astrologia como um manual de instruções de como lidar com as pessoas e conviver em sociedade.

Passa a pesquisar profundamente sobre o tema e justificar absolutamente tudo com argumentos astrológicos a ponto de conferir o mapa astral de todos ao seu redor antes de tomar qualquer atitude. É como se o estudo dos astros no momento do nascimento fosse sua religião oficial.

Aliás, se formos parar pra pensar, a partir do momento que se torna uma crença e que pessoas seguem seus ensinamentos como se fossem dogmas irrefutáveis, a astrologia também não pode ser considerada uma espécie de religião? Por que não?

Sendo culpa ou não dos astros, numa coisa Alice sabia que Tito tinha razão; sua vida realmente tinha se transformado num caos completo.

Além de ser informada que seu ex namorado aquariano, que sempre foi desapegado e volúvel (bem típico do signo, por sinal), vai se tornar pai e está prestes a se casar, recebe a notícia de que a emissora de TV no qual trabalha contratou um consultor chamado David Nardi para avaliar e demitir alguns de seus funcionários.

Ou seja, pra confirmar que a teoria do caos realmente existe, o destino (ou seria as estrelas mesmo?) resolveu desestabilizar a vida de Alice em todas as áreas possíveis. Com medo de perder o emprego e se sentindo insuficiente e inferior por conta das novidades inesperadas sobre seu ex, dá um voto de confiança a Tito e à astrologia. Afinal, essa maré de azar não pode ser mera coincidência, precisa ter algo a mais que explique tudo isso. Ou pelo menos foi nisso que ela começou a acreditar.

Enquanto lia o livro, não pude deixar de comparar Anastacia Steele, personagem e narradora de 50 tons de cinza, com Alice do Guia astrológico, e de notar semelhanças entre a escrita de E.L. James com a de Silvia Zucca. (Aliás, até o próprio Nardi, paixão de Alice, tem um ar meio Christian Gray).

Além das duas histórias serem apresentadas em primeira pessoa, as duas protagonistas femininas têm o mesmo senso de humor irônico e cheio de referências. Anastacia é uma estudante de Literatura inglesa apaixonada pelos clássicos e Alice é viciada em cinema e principalmente, em comédias românticas, como denuncia seu kit de sobrevivência formado por filmes do gênero que ela recorre nos momentos de desespero e solidão.

Logo, é claro, que ambas usam desses conhecimentos para relacionar com fatos cotidianos de suas vidas. O tempo todo citam trechos de livros, cenas de filmes ou letras de música ao tentar explicar como se sentem para os outros e para si mesmas. O que pra mim e acredito pra maioria dos leitores, é ótimo, pois os diálogos se tornam mais inteligentes e criativos e estimulam nosso interesse por novas obras, aumentando, assim, nossa bagagem cultural.

Dessa forma, Alice, assim como Anastacia, pode ser vista como uma mulher divertida, sagaz, perspicaz, talentosa, frágil e insegura, mas, ao mesmo tempo, forte e determinada a alcançar a felicidade amorosa e profissional. Ela é do tipo que não abandona seus sonhos mesmo com todas as adversidades que a vida lhe oferece (e olha que não são poucas), servindo de exemplo para todos nós, que em grande maioria, ao toparmos com a primeira dificuldade já desistimos de nossos objetivos.

Portanto, eu preciso ser mais Alice. Você que está lendo, provavelmente, também precisa ser mais Alice. Todos nós precisamos ser mais Alice.

Contudo, conforme a narrativa vai decorrendo, Alice vai descobrindo a leonina que estava escondida dentro de si e deixando-a rugir (deixei aflorar a Katycat que há em mim, desculpem). Ao descobrir que tinha feito seu mapa astral com base num horário de nascimento errado, se dá conta que além do fato de ter ascendente em leão, estava baseando todas suas ações em cima de um quadro astrológico errado.

Então, surge a dúvida: tudo que ela seguiu fielmente durante esse tempo todo era uma mentira? A astrologia, na verdade, é apenas uma farsa?

Não é bem assim. Como disse antes, extremismos de qualquer lado, não é capaz de solucionar nenhuma questão.

A astrologia, de fato, ajuda no autoconhecimento do indivíduo e precisa de muito estudo para entendê-la profundamente. Tem vários detalhes que precisam ser analisados e não é qualquer um que pode se autointitular especialista no assunto, como muitos pensam. Existem profissionais que dedicam horas ao aprendizado dessa ciência tão mística.

Cabe a nós respeitarmos aquilo que não compreendemos ou não conhecemos e abrirmos nossas mentes para o desconhecido. Quem sabe você não se surpreende? Afinal, quando falamos de astrologia, também estamos falando de psicologia, pois qual a finalidade das duas se não ajudar a entender o comportamento humano?

Isso não significa que você deve sair por aí excluindo pessoas porque os signos delas não são compatíveis com o seu (até porque, você já conferiu o mapa astral completo delas?) ou deixar de viver porque seu horóscopo personalizado ( outro fator importante, aliás. Tem que ser personalizado pra você, com todos seus dados certinhos. Não vale aquele horóscopo fajuto de jornal e revista não, hein.) diz que seu inferno astral começou e por isso, é melhor não sair de casa.

Astrologia serve pra te dar uma orientação, sugerir possíveis caminhos, te fazer evitar situações perigosas ou que te trarão sofrimento, possibilitar a descoberta de seus potenciais escondidos para fazê-los aflorar, dar luz à emoções represadas, como também, entender o motivo de terem sido bloqueadas, entender porque você sente, pensa ou age de determinada forma, dentre outras coisas relacionadas a você e às pessoas que te cercam.

Porém, não podemos esquecer que o mundo é cheio de possibilidades e que a vida é feita de escolhas. Cabe a cada um escolher qual dentre as milhares de opções que se apresentam a nós vai ser a melhor para a nossa vida.

Alice não só compreendeu isso, como também provou pra si mesma que pra ser amada por um homem, antes de tudo, ela precisava se amar por completo também, com todos seus defeitos e qualidades. Só quando foi capaz de reconhecer o próprio valor e se sentir plenamente feliz e realizada sozinha, finalmente, o amor resolveu lhe dar uma trégua.

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