Resenha | Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

Homens Imprudentemente Poéticos
Autor(a): Valter Hugo Mãe
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 192
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Acho que a parte mais difícil em escrever sobre algum livro do escritor português Valter Hugo Mãe é justamente perceber a quão limitada é a minha escrita. Valter Hugo Mãe consegue transformar assuntos tristes em frases belas, beirando a poesia. Arrisco que pode chegar à poesia de tão belo uso das palavras ele faz. Não é sem merecimento que o autor é considerado um dos maiores escritores portugueses da contemporaneidade.

Lendo “Homens imprudentemente poéticos”, o leitor, que no caso desta humilde resenha foi eu, se encanta em cada capítulo, em cada pequeno detalhe principalmente sobre a menina cega Matsu, que significa pinheiro em japonês. Devido sua condição, seus familiares viam-na como um fardo na vida, alguém limitada a conhecer a vida sem poder vê-la. Em muitos momentos, seu irmão e artesão Itaro compreende que Matsu vive em uma prisão dentro dela mesma, incapaz de conhecer o mundo por meio de todos os sentidos.

Valter Hugo Mãe passou um tempo no Japão para escrever essa obra e percebemos o quanto ele incorpora os seus conhecimentos sobre tal povo ao escolher o nome da menina cega. Além de Matsu significar pinheiro, como destacado, essa árvore é o símbolo da longetividade, o que para os japoneses significa sabedoria. Matsu é a metáfora da sabedoria na obra. Ignorada por seus familiares, ela era quem mais tinha sensibilidade de compreender cada sentido da vida. Sua limitação na verdade era seu grande potencial.

Resenha | Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

Em meio à questão de Matsu, vemos seu irmão Itaro ter como inimigo o oleiro Saburo, que vive um período de luto após o falecimento de sua esposa. Saburo buscava representar a presença da sua esposa por meio do kimono dela, pois não conseguir lidar com a ausência dela.

No Japão, como o próprio autor ressalta, a morte não é compreendida da mesma forma como nós no Ocidente. A morte é se entregar à natureza, único caminho possível para a vida do homem. Podemos dizer que há mais de um tipo de morte trabalhado na obra: a morte dos suicidas, a morte física e talvez a morte do espírito de Itaro.

Ao longo da história Itaro, tem seu emocional cada vez mais levado ao escuro a ponto de literalmente passar sete luas e sete sois dentro de um poço fundo, sem luz alguma. Nesse momento, Itaro tem que lidar com seus medos, com a morte e com a culpa pelo que fez com a irmã. Itaro entregara a irmã a um comerciante para viver com ele e assim carregar menos fardo em sua casa. Na imersão da escuridão, Itaro compreende a valiosidade que tinha dentro de Matsu, a mais sábia, a que mais via e sentia a vida.

Muitas coisas podem ser discutidas em torno de tão belo livro. É uma obra que precisa ser relida e relida e apreciada. Valter Hugo Mãe nasceu em 1971 e é sem sombra de dúvida um autor incrível, com uma escrita encantadora. Termino esta breve resenha com o seguinte trecho:

Itaro pensou que a escuridão só se equivalia de verdade sem obstáculos. Como se fosse um céu infinito por onde os pássaros poderiam desimpedidamente voar.
(MÃE, 2016: 129)

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