Resenha | Meu Amigo Dahmer, de Derf Backderf

Meu amigo Dahmer
Autor(a): Derf Backderf
Editora: DarkSide Books
Páginas: 288
Avaliação: 4.7
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 4

Jeff Dahmer é responsável pela morte de 17 homens e garotos entre 1978 e 1991. Estima-se que cerca de nove anos se passaram entre o primeiro e o segundo assassinato. Foi pego em 1991, quando uma de suas vítimas conseguiu fugir, e morreu em 1994 na cadeia, assassinado por outro detento.

Meu amigo Dahmer é uma HQ feita por Derf Backderf, e seu foco não está em quem Jeff Dahmer era quando seus assassinatos se tornaram rotina, mas questiona e elabora como o homem foi formado e o que o levou ao extremo de matar, praticar necrofilia com suas vítimas e canibalismo como forma “mantê-los consigo”.

É também a primeira publicação do selo de Graphic Novel da editora DarkSide Books, que traz o mangá Fragmentos do Horror e a HQ Wytches, cujas resenhas vocês poderão conferir em breve no Versificados.

“Creio que Dahmer não precisava ter acabado como um monstro […], se os adultos que fizeram parte da vida dele não fossem tão inexplicável, incompreensível e imperdoavelmente sem noção e/ou indiferentes. […] Era um infeliz, um ser problemático, cuja perversidade estava quase além da compreensão. Tenha pena, mas não empatia.”

Em uma época em que drogas e bebida não eram exatamente um problema e a supervisão nas escolas era mínima — ainda que os castigos fossem extremamente cruéis —, Dahmer se formou como pessoa.

Com pais que não se entendiam e discutiam aos gritos praticamente todos os dias, sua casa não era um ambiente agradável e aconchegante. A escola poderia ter sido o único lugar onde ele se sentiria seguro, porém (assim como para muitos jovens) ela era um local instável, no qual ele não tinha amigos, sofria bullying e era desprezado, inclusive por Backderf, que não omite o quanto ele próprio não colaborou para, digamos, uma versão melhor de Dahmer.

Já nos últimos anos do colégio, Jeff virava seis latinhas de cerveja em questão de minutos e era tão descarado e, ao mesmo tempo, furtivo em suas aventuras alcoólicas que só foi pego de fato uma vez. Chegava aos portões antes de todo mundo e era o último a sair, aparentando, para os desatentos, ser um aluno exemplar.

Marcado por desejos sexuais bizarros, interesses questionáveis e uma piedade que só foi de fato aplicada aos animais (Jeff observava seus corpos em decomposição, mas não os matava), a imagem de um homem sem expressão foi formada. Um homem que, ao ser preso, não se vangloriou das suas atitudes, mas as admitiu com honestidade e total indiferença.

A edição está impecável, os desenhos de Derf Backderf são muito bem-feitos e transparecem o tom que o livro pede: sombrio quando precisa ser, mostrando as coisas como elas são em outros, sem espaço para dramaticidade exagerada.

Ao final da história, é possível acompanhar algumas cenas extras que não entraram no material final da HQ, mas que ilustram outras passagens importantes na formação de Dahmer, assim como exclui voluntariamente maiores detalhes sobre o pai e o irmão mais novo do futuro assassino, focando na presença marcante de uma mãe que acabou algumas vezes internada em alas psiquiátricas e se recusava a admitir seus problemas mentais.

A edição da DarkSide também conta com maiores explicações sobre as fontes do autor, desenhos originais a lápis e permite algumas divagações a respeito de quem Jeff Dahmer realmente era. Uma tentativa de entendê-lo que, conforme o próprio Derf diz, não visa explicar as ações futuras de Jeff, mas de fato pauta um sentimento de pena, perplexidade e repulsa que nos acompanha ao longo de toda a narrativa.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook