Resenha | Os Pescadores, de Chigozie Obioma

Os Pescadores
Autor(a): Chigozie Obioma
Editora: Globo
Páginas: 270
Avaliação: 4.7
Capa: 5 Diagramação: 4 Conteúdo: 5

Meu contato com escritores africanos é, infelizmente, muito pouco. Lembro-me que, nesse ano de 2016, tive o prazer de conhecer um pouco de Chimamanda Ngozi Adichie e suas ideias sobre feminismo, no livro Sejamos todos feministas.

Foi muito interessante pelo fato de meu contato com a literatura se dar, costumeiramente, por meio de autores americanos, ingleses ou brasileiros; quiçá portugueses. Dessa vez, tive a oportunidade de aprender e conhecer um pouco da cultura africana pela obra Os Pescadores, do nigeriano Chigozie Obioma.

É um livro interessante, por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque a obra é a primeira produção do autor; algumas pesquisas rápidas me permitiram verificar que Obioma não havia escrito livro nenhum antes desse.

Em segundo lugar porque, mesmo sendo uma obra inicial, nova e recente, Os Pescadores concorreu a vários prêmios literários, sendo vencedora de alguns. Talvez seja o cartão de visitas de Chigozie Obioma no vasto mundo literário; pelo menos é o que espero.

A obra em si não faz o tipo de literatura que estou habituado e que gosto de ler, me debruçar. É uma história com poucos momentos de emoção, mas que passa muitos ensinamentos e contextualiza de modo amplo o leitor no que diz respeito aos valores, à cultura e a determinadas tradições na Nigéria.

O enredo fica limitado a um lugar apenas, Akure, uma cidade nigeriana que, devido à colonização europeia, passou por muitas transformações culturais e religiosas. Nessa cidade reside uma família bem tradicional e que é a protagonista do romance; o filho do meio, Benjamin, é o narrador da história, e conta pelo que passou até ser preso, acusado de assassinato.

Ben, como é chamado ao longo da história, é irmão de Ikenna, Boja, Obembe, David e Nkem, dos mais velhos para os mais novos, contando do primeiro nome para o último. Os pais (dentre os quais só se conhece por nome Eme, o pai) são bem tradicionais e conservadores, preocupados com a educação dos filhos, ainda mais levando em consideração que os garotos estão em fase de adolescência.

Grande parte do livro gira em torno de uma profecia feita por um tal Abulu, um louco que vagueia pelas ruas de Akure a dizer coisas, para alguns, sem sentido, sandices que não deveriam ser levadas em consideração.

Durante um período, Benjamin, Ikenna, Boja e Obembe frequentaram um rio próximo de casa, o Omi-Ala, sobre o qual recaía diversas lendas e maldições; diz-se que ninguém deveria chegar perto, pois já foram encontrados cadáveres em suas margens.

Mas, ao sair da escola, os meninos, acompanhados de outros amigos da vizinhança, iam até o rio para pescar. Todos eles procuravam andar equipados com latas e anzóis para pegar boa quantidade de peixes. Eles eram muito intrépidos e aventureiros, e gostavam de canções de pescadores, fato que desagradava de modo fora do comum o Pai e a Mãe dos irmãos.

Sim, usei os termos em caixa alta, pois é assim que se pode perceber que aparece no decorrer de todo o romance; não sei se por atribuir um valor além do que é normal, ou pelo fato de ser uma tradição cultural, os pais de Benjamin são sempre invocados na obra com iniciais maiúsculas (“Pai” e “Mãe”); é algo muito interessante e que chamou a minha atenção na leitura.

Há muitos acontecimentos com a família em questão, mas há um, muito específico, que faz toda a história desandar, e isso dá um tom mais dramático à obra; não vou dizer qual é, mas saiba que tem a ver com uma das profecias do louco Abulu relacionadas à família de Benjamin.

É um livro de vários acontecimentos importantes e, por isso, vou evitar me estender na resenha, pois nada melhor do que o próprio leitor descobrir e interpretar a história por si mesmo; no entanto, posso adiantar que Obembe e Benjamin saem em busca do louco para matá-lo, visto que suas previsões afetaram diretamente a família como um todo e, para isso, procuram se valer dos anzóis que usavam para pescar.

Não é uma história feliz e alegre, mas tem algumas reviravoltas curiosas que prendem a atenção. Além disso, é um livro muito legal no que diz respeito a descobrir um pouco das tradições culturais da Nigéria (a maneira de chamar os filhos e o esposo, algumas curiosidades, como o fato de se chamar alguém de “meu amigo”/”minha amiga” representar irritação ou impaciência, entre tantas curiosidades).

Há algumas questões políticas que permeiam a narrativa, e é importante se atentar nelas. No mais, recomendo a leitura de Os Pescadores; acho muito válido dar voz e vez aos novos autores. A arte precisa circular e se renovar, e Chigozie Obioma já está fazendo sua parte. Boa leitura!

Resenha por Thiago Marques
exclusivamente para Versificados

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