Resenha | Otelo, de William Shakespeare

Otelo
Autor(a): William Shakespeare
Editora: Penguin
Páginas: 368
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Creio que a parte mais difícil de escrever uma resenha de uma obra clássica de um autor reconhecido e famoso em qualquer canto do mundo é justamente pelo fato de muitos trabalhos já terem sido escritos, além da quantidade de especialistas formados e que estão se formando em torno desse autor. Ter noção do peso que uma obra tem não só no mundo acadêmico, mas para uma sociedade torna a leitura mais valiosa. Refiro-me hoje a Otelo, peça de William Shakespeare.

Característica de peças teatrais, temos contato logo com a lista de personagens. O primeiro ato – a peça está dividida em cinco – apresenta-nos os principais personagens, como Otelo – o mouro -, Desdemônia – filha de Brabâncio, senador de Veneza; tem posição social destacada e cuja imagem formada por aqueles que convivem com ela é a de uma moça admirável, com muita educação e com bons modos – e Iago – o personagem mais emblemático e o vilão da história.

Otelo, mesmo sendo estrangeiro em Veneza e ainda por cima mouro, obteve uma posição importante entre os venezianos devido suas conquistas militares. Ele se casou com Desdemônia escondido, sem o consentimento de Brabâncio, que crê que a filha fora enfeitiçada. Iago provoca Rodrigo – homem apaixonado por Desdemônia, mas que nunca teve seus sentimentos correspondidos e era desaprovado pelo pai dela – a contar o que Otelo e Desdemônia fizeram. Contudo, o senador descobre que a filha se casara pela sua própria vontade e não por feitiçaria do mouro.

Em meio à confusão estimulada por Iago, chega até a Veneza que os turcos estão atacando em Chipre e Otelo é a quem o senado de Veneza confia a tarefa de combater os turcos. Desdemônia, por ser sua esposa escolhe acompanhar o marido.

Esse é o ponto de partida para o desenrolar da peça. Todas as novas intrigas provadas por Iago acontecerão fora de Veneza, na ilha de Chipre. O vilão, casado com Emília, camareira de Desdemônia, mostra-nos diversas facetas. Ele é capaz de se mostrar um homem honesto e virtuoso para aqueles que pretende que o vejam assim, demonstrando excelente qualidade de articulador.

Isso porque ele consegue manipular as personagens de forma que ninguém percebe que todos os maus entendidos foram provocados por ele. Apenas Rodrigo, quem ele promete o amor de Desdemônia, no final entrega Iago. Assim como Emília sabe que seu marido não é flor que se cheire, ela também conta algumas coisas que Iago a pedira e que faziam parte da trama de fazer com que Otelo desconfie da honestidade e castidade de sua própria esposa, provocando-lhe ciúmes imensuráveis cujo fim é trágico.

O meu objetivo nesta resenha não é resumir a peça de Shakespeare. Diversos detalhes não foram apresentados, isso porque é impossível dar conta de tantas peculiaridades de Otelo. Apresentarei algumas questões que notei lendo apenas a peça e depois os textos de apoio que fazem parte desta edição da Penguin pela Companhia das Letras.

Como o leitor notará, Iago é a personagem mais importante para o desenrolar das intrigas. Em um primeiro momento, podemos até crer que a peça trata apenas de jogos encabeçados por Iago a fim de se vingar do mouro. Ele tem uma repulsa a Otelo, que como dito, era estrangeiro que conseguira uma posição privilegiada em Veneza e ainda se casara com uma moça pertencente à elite.

Por trás de todo esse pano de fundo, questões sociais, como desprezo ao estrangeiro – preconceito presente em diversas sociedades até hoje – e o relacionamento entre pessoas de origem e cor diferentes, que também revelam o preconceito em torno da cor na sociedade elizabetana (século XVI), além de questões de cunho filosófico, em que o homem é mal simplesmente porque essa é a sua natureza, representado pura e unicamente em Iago.

Outro elemento a ser destacado é a representação da mulher. Como destacado nos textos de apoio, temos três figuras femininas, Desdemônia, Emília e Bianca – uma cortesã. A primeira é representada pelos personagens masculinos como símbolo da mulher ideal, mas que até um certo momento age de acordo com sua vontade.

Emília é mais realista e Bianca é totalmente desprezada por conta da vida que leva, sendo o oposto a Desdemônia aos olhos da sociedade. Traçando um rápido paralelo com a atualidade, mesmo com a revolução feminista dos anos 1960 e o atual, nós ainda somos classificadas de acordo com nossos comportamentos e somos moldadas a ideais de conduta, de trabalho e de vestimenta.

Ressalto mais uma vez, a importância de entrar em contato com obras que marcaram períodos e que ainda levantam questões sobre o comportamento humano, nossos preconceitos, nossos ideais de sociedade, além da própria perversidade humana, tão visível em qualquer noticiário do dia.

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