Resenha | Sangue Quente, de Isaac Marion

Sangue Quente
Autor(a): Isaac Marion
Editora: LeYa
Páginas: 252
Avaliação: 4.2
Capa: 5 Diagramação: 3.5 Conteúdo: 4

Leitura tranquila com frases que se destacam em meio ao surreal.

R é um zumbi quase normal: seu corpo está em decomposição, seu apetite para cérebros está tão grande quanto sempre esteve, barulhos estranhos saem quando ele tenta falar e sua existência está pautada em absolutamente nada.

Sim, ele “mora” em um aeroporto, passa boa parte do tempo pensando sobre sua morte, tem um amigo chamado M e até uma mulher (que não ama) e filhos (que nunca crescerão). Bom, eu disse que ele era quase normal. E é por isso que, se você for adepto dos zumbis sem consciência, sentimentos e sentido, esse livro não é para você.

Quando você chega no fim do mundo, não interessa muito que caminho pegou para chegar lá.
— página 16

R coleciona objetos que acha ao longo do tempo. Sua trilha sonora é principalmente Frank Sinatra e seu apartamento cinco estrelas é um avião 747. Em meio a uma saída para um lanche, R encontra Julie – uma menina que ele teria matado de primeira se não tivesse matado seu namorado antes, conhecido um pouco dele e dela, e sentido uma espécie de carinho por ela.

Para evitar que ela seja morta, R a cobre com seus fluidos, faz gestos para indicar que ela deve se parecer uma zumbi, e a leva até seu avião. Agora ele não quer matá-la, quer protegê-la de todos os outros que sequer pensariam duas vezes antes de comer seu cérebro.

Não há um mundo ideal que você possa esperar que apareça. O mundo sempre foi o mesmo, depende de você saber o que fará nele.
— página 123

Isaac escreve uma boa história, que alguns dizem ter sido feita para satirizar zumbis. Se foi ou não, eu não tenho certeza, mas chutaria para o sim já que, apesar do tom da narrativa ficar mais sério ao longo do livro, certas horas a ironia está subentendida.

Costumo não ligar muito para as mudanças e romantização de personagens sobrenaturais, todavia, ao me deparar com R e M, alguns níveis de aceitação foram testados e por não terem sempre sido aceitos, minha nota não poderia ser a maior.

O que quero dizer é que o mundo é uma bosta e coisas fodidas acontecem, mas não precisamos nos banhar na merda.
— página 185

Mesmo assim, “Sangue Quente” é uma leitura tranquila, com frases que se destacam em meio a uma realidade que (espero) nunca vivamos, frases que podem muito bem ser utilizadas para os dias de hoje. Críticas, acima de tudo.

Marion nos apresenta mais que um mundo transformado, ele aposta em um zumbi que, ao se comunicar com outra vida, começa a dar valor à vida humana, à Julie e cria uma esperança de um mundo melhor, que pode (ou não) se tornar real.

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