Resenha | Sejamos Todos Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie

Sejamos Todos Feministas
Autor(a): Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 87
Avaliação: 5
Capa: 5 Diagramação: 5 Conteúdo: 5

Sejamos Todos Feministas foi, inicialmente, um discurso do TED que, adaptado para um manifesto, foi lançado em livro pela Companhia das Letras. Um retrato claro de como a palavra “feminista” vem repleta de uma ideia negativa que precisa ser apagada: no meio do caminho, “feminista” virou sinônimo de mulheres que não usam salto ou maquiagem, que não se depilam e que não gostam (para não dizer odeiam) de homens.

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que essa conexão não corresponde à realidade, e é isso que Chimamanda Ngozi Adichie tenta explicar aqui. Ainda que não seja um livro que dite regras sobre o que é o feminismo — ou sobre o que mulheres feministas devem ou não fazer —, ele deixa claro, com exemplos bem práticos, como as ideias negativas acerca do movimento simplesmente não fazem sentido.

Ela fala sobre como nós, mulheres, crescemos já cercadas de discursos que nos limitam, e como todos estes contribuem para uma noção de que mulheres estão aqui para servir e deixar os homens confortáveis, enquanto o mesmo em nenhum momento é ensinado a eles. É como ela diz: “Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocuparem com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece” (pag. 27).

Mulheres podem ser firmes, fortes, terem pontos de vista — desde que isso não ameace a forma como o homem vê a si mesmo. É a velha e real história de que o homem pré-histórico era provedor, o que, segundo a autora, fazia sentido no contexto de vida que se vivia. Hoje em dia, entretanto, não há espaço para isso. Feminismo não dita o que mulheres devem fazer, ou como devem se portar, ou como devem se vestir, mas lhes dá a oportunidade de escolher o que melhor corresponde ao que ela quer. Basicamente, a liberdade que os homens têm tido desde sempre.

Nós as fazemos sentir vergonha da condição feminina; elas já nascem culpadas. Elas crescem e se transformam em mulheres que são podem externar seus desejos. Elas se calam, não podem dizer o que realmente pensam, fazem do fingimento uma arte. […] O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero. — pág. 36

Em determinado momento, Chimamanda cita como um de seus amigos homens sugeriu, em uma pergunta, que ela deveria parar de se autointitular como “mulher feminista” e passar a usar apenas o termo “ser humano”. Ela negou, dizendo que era óbvio que era um ser humano, mas que também era mulher e feminista, duas particularidades que, infelizmente, ainda carregam uma bagagem que nem sempre é fácil de segurar.

Ironicamente, o mesmo homem se intitulava “homem negro”, e provavelmente não aceitaria retirar o termo “negro” porque essa característica também traz uma bagagem diferenciada. Para exemplificar isso, ela cita um caso de uma mulher que foi estuprada por quatro homens. O discurso que ela mais ouviu era: “tudo bem, foi errado, mas o que ela estava fazendo ali?”. Não preciso nem citar o quanto isso esbarra (ou cai de fato) dentro da nossa realidade, certo? Mesmo quando a mulher é vítima, ela é culpada.

Em outro momento, ela cita um episódio de quando foi a um restaurante com um amigo. Ela deu gorjeta ao garçom e ele, em resposta, agradeceu ao amigo, e não à ela. Ou seja, a primeira impressão dele foi que, se ela estava lhe dando dinheiro, este dinheiro só poderia vir do homem, não dela e do seu trabalho.

[…] mas há um abismo entre entender uma coisa racionalmente e entender a mesma coisa emocionalmente. Toda vez que eles [os garçons] me ignoram, eu me sinto invisível. […] Sei que são detalhes, mas às vezes são os detalhes que mais incomodam. — pág. 23

Um livro para mostrar que esse tom de normalidade está equivocado, Sejamos Todos Feministas se encerra defendendo que homens e mulheres podem, e devem, ser feministas. É papel também do homem perceber quando um amigo, um colega, um companheiro de trabalho está portando uma atitude que seria diferente caso o alvo fosse uma mulher — e falar a respeito.

Feminismo, sem dúvida, é uma luta das mulheres. E, sem entrar em questão das vertentes e o que cada uma acredita, é colocar a mulher em pé de igualdade com homens. Isso significa dizer que, por exemplo, em uma disputa para um cargo alto em uma empresa, homem e mulher lutam pelo mesmo salário, sendo avaliados por suas habilidades e competências, e não por seu sexo.

Este, sem dúvida, é um livro imprescindível para quem quer entender melhor o movimento. Bem escrito, simples e bem editado, é para reler de vez em quando, e perceber o quanto ainda precisa ser adequado para que vivamos numa sociedade que verdadeiramente oferece direitos iguais a homens e mulheres.

Se repetirmos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. […] Eu tendo a cometer o erro de achar que uma coisa normal óbvia pra mim também é óbvia para todo mundo. — pág. 16

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