A falsa ideia do silêncio da morte

Seu nome: Adriana. Eternamente Nana. No meu íntimo, eternamente um símbolo do amor que recebi e vou compartilhar com todos que, comigo, estiverem.

Ela foi a joia e a rocha. Era linda, e, se eu estimasse muitas descrições, falaria mais da destreza do seu sorriso e do olhar. Ela era de me asfixar a todo instante. Desde quando nasci, ao último momento que eu a vi.

Algumas são as lembranças nas quais me ative ao seu olhar: Os dias em que ela chegava, toda contente de ser uma irmã modelo, com nossos bombons e brinquedos, ou com a famigerada casa da barbie, que eu, espertinha, havia pedido em troca de parar de chupar chupeta. Havia o dia em que, voltando do trabalho, me trazia um doce saboroso, ou um pastel de frango.

Outros foram os dias em que penteava meus cabelos tão crespos, e punha cachinhos vistosos para que eu aproveitasse o domingo. E quando eu era uma criança berrenta e ávida de atenção, mas minha saudosa magrela estava nas aventuras carnais com seu respectivo amado, lá no antigo muro da minha casa? Era certo que ela me ameaçaria de contar um segredo à minha mãe se não a deixasse a sós. Ixi, eu logo saía de perto.

E quando trazia, depois de seu trabalho – sempre de muitos trabalhos – alguns dos cds das bandas que eu mais ouvia na época? Eram todos pirateados, mas não havia sentimento de culpa, só de prazer ao poder repetir a música querida mais de 10 vezes ao dia.

E quando chorava? e quando sofria? e quando padecia de depressão e não queria mais a vida?
Ah, da minha irmã eu nunca tive solidão. Silêncios eram irreais para nós. Talvez não houvesse um dia em que eu não ouvia sua voz delicada, ou seus gritos de carinho quando eu deixava uma louça na pia da casa dela. Os olhos sempre me diziam. Sempre me diziam.

E ah, quando veio o horror. É, aquele doença cuja consequência é o medo e a desesperança? Nem assim o silêncio brotou. Era aí mesmo que ela danava a falar, a orar, a dar gargalhadas, e rir de sua aparência tão invulgar. Julgava-se curada antes mesmo de a impureza deixar seu pobre corpo. E eu mesma não acho que ela estava em erro: o erro estava em achar que sua crença era fantasia. Ela, de fato, veio curada a esse mundo; ou pelo menos nos curou de diversas contrariedades familiares.

Houve um momento em que eu me imaginei perdida. Parecia mesmo que o silêncio iria se tornar nosso idioma. Nem seus olhos talvez diriam algo. Ou diriam? Infelizmente, disseram. Disseram muito. Era falsa a ideia do silêncio. Era falsa.

Naquela cama, naquele leito, seu corpo sem jeito e repleto de tortura, uma lágrima caiu. Palavras não haviam. Ela já não conseguia se comunicar, respirar ou comer. Mas aqueles olhos, eles me marcaram para sempre. O silêncio não mais havia ali. A dor, a cruz, a alma, todos gritavam que não conseguiam mais suportar. A explosão de sentidos foi tamanha. A sílala não construída na boca perpassou limites, e veio dos olhos. Sempre dos olhos.

Foi-se.

A morte não foi o silêncio terrível em que eu me comprometia a acreditar. O silêncio fora quebrado com a erupção das lágrimas. Aquela última lembrança me apanhou.

Hoje, minha irmã ainda fala comigo. Vem em sonhos, em silêncio. Mas ainda me mostra seu olhar. Crava em mim as pupilas e me transfere uma porção de pensamentos. O silêncio nunca mesmo vai existir entre nós.

Descanse para sempre em paz, Nana.
Eterna A.F


Por Karoline Freiras

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