A hora em que os ruídos se deitam

Havia vozes e tilintares de pratos sendo postos. Mesclavam-se ao ruído suspenso formado pelos sons de dentro e de fora, na rua, de onde se percebiam buzinas, motores, gritos e xingamentos. O burburinho urbano lhes pressionava pela esquerda, de onde se metia pelas portas abertas, e pela direita, de onde a efervescente atividade culinária se anunciava presente. Estes espectros metropolitanos, no entanto, eram maestralmente ignorados, de semelhante maneira à que os peixes mal percebem a água que os envolve e onde vivem imersos do nascimento à morte.

Eram quatro. Três perfeitamente comuns e uma mulher que lhes chefiava. Juntos tocavam um escritório de advocacia metido no fundo de um corredor de algum sétimo andar. A chefe quase nunca estava presente, enfiada sempre em múltiplas tarefas que lhe davam mais ainda dinheiro e poder: uma parelha de privilégios que ela ostentava com a soberba de sua mera presença. Os outros, comuns e humildes, eram tão tomados de deveres que mal lhes sobrava cabeça para inveja-la ou admira-la. Nem sequer detestavam sua postura altiva, apenas tinham conhecimento de sua existência como se sabe que uma montanha está lá, sempre presente no horizonte.

Mas é claro que não era assim sempre. Naquela hora, pressionados pelo ruído que ignoravam, era uma noite de sexta-feira. Era a querida happy hour, quando esqueciam deveres, camuflavam preocupações e o tempo deixava de existir. Falavam alto, contavam piadas ruins, bebiam mais, até que, em dado momento, os ruídos do lado de fora já tinham cessado, permanecendo apenas três ou quatro mesas ocupadas do lado de dentro.

– Pessoal, está muito bom… – começou o mais comum dos comuns, pois a vaziez do silêncio o fez notar a hora avançada, sem saber que atentava para o que não ouvia mais – mas preciso ir.

Sob protestos não muito enérgicos dos outros e um pouco tonto pelo álcool, jogou o paletó sobre o ombro, pendurou a pasta noutro e pegou o celular que jazia de tela para baixo sobre a mesa. Fez os passos até a porta meio cambaleante, olhando fixo o aparelho e três coisas simultâneas ocorreram naquele derradeiro segundo: a chefe gritou seu nome, algo vibrou dentro do bolso da calça, e o que ele leu no celular congelou suas entranhas.

Ele estacou com a mão na maçaneta.

– Você pegou o meu, teu celular tá no bolso! – vociferou a chefe, o tom exaltado não prendeu atenção dos outros bêbados por mais de um instante, era uma atitude típica do ambiente.

– Desculpa, nem percebi. – disse devolvendo o aparelho quando ela se aproximou.

Foi a primera vez em que se sentiu realmente intimidado por ela. Tentou rir, mas o que tinha lido não saía da cabeça. Conseguiu deixar o recinto sem se alvoroçar e correr irracionalmente.

A noite carioca era quente. A sola dura dos sapatos sociais taquetaqueava compassada pelas pedras brancas da calçada. Ainda tentava não correr, não havia necessidade, morava a vinte minutos dali, algumas quadras depois do túnel, se fosse a pé. Percebeu que seu coração estava muito acelerado e as mãos trêmulas. Reconheceu o medo, mas não lhe dava razão. Sim, claro que o Rio de Janeiro era perigoso, o mundo sabe disso.

Claro que já era meia noite e por onde passaria não havia boemia, apenas os maltrapilhos moradores de rua. Mas o medo que sentia não era do perigo potencial que aprendemos a anestesiar quando passamos muito tempo sem ver as estatísticas se cumprirem. Era um medo mais presente, mais próximo.

Não queria pensar em “medo real”, mas o que vira no celular não deixava possibilidades para dúvida. Tinha medo do que lhe poderia acontecer por simplesmente ter visto aquilo, por apenas saber. Não acreditava que o juízo de sua acidental indiscrição chegasse naquela noite, mas o medo já se antecipara.

Atravessou um cruzamento no mesmo momento em que um homem abaixou da orelha um celular, olhou-o diretamente, e seguiu pela mesma calçada na mesma direção. O homem comum apressou o passo, declaradamente atemorizado, e o que vinha atrás fez o mesmo.

Se quisesse acelerar mais, teria de correr, mas não quis a possibilidade de fazer uma cena ridícula. O homem de trás se aproximava com passos mais largos. Dir-se-ia que queria mesmo alcançá-lo.

O homem comum atravessou a avenida, o túnel já estava em frente, a salvadora luz elétrica brilhando no fim.
O outro atravessou em seu encalço. Sem dúvidas queria alcança-lo. Decidiu: no que entrasse pelo túnel, correria para casa em um minuto.

Prestes a correr, a mão pousou sobre seu ombro.

Os pulmões pararam e ele se deixou virar.

– Boa noite, onde é o metrô?

Expirou, aliviado.

– Nessa rua. – disse quase cuspindo suas débeis instruções.

O homem agradeceu e se foi.

Ele entrou no túnel, mais tranquilo. Que besteira! Como pôde achar isso? Andou assobiando. Um mendigo deitado no caminho se remexeu sob um cobertor, parou e deitou-lhe todas as moedas do bolso. Saiu do outro lado rindo e quase cantando, quase podia ver o prédio do apartamento, faltavam duas curtas quadras.

Um tiro áspero estourou o ar. O estampido reverberou pelo túnel e se propagou longamente pela noite, até os ouvidos daquela que lhe dera ordem para existir, e então se extinguiu, devolvendo à noite seu silêncio. O “mendigo” guardou a arma e o celular sob o cobertor puído, levantou-se, passou pelo cadáver ainda quente e sorridente e devolveu-lhe as moedas.


Por Anderson Câmara
exclusivamente para Versificados

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