Revista | As Colinas Estão Vivas com o som da Música

O raiar do dia lá em casa, quando eu era criança, era musical. Mamãe ligava o rádio e começava a fazer as coisas. Ela colocava a casa para cantar, incluindo eu e a minha irmã, e nos apresentava músicas, artistas, gêneros e estilos. Assim, passeávamos da música clássica ao rock, passando pela MPB e tudo mais. Não havia preconceito nem censura: ouvíamos de tudo.

Pouco depois da alfabetização, comecei a estudar na Escola de Música da UFRJ (naquela época, nos referíamos a ela com a pompa de Escola Nacional de Música) e fui entendendo mais da teoria e me aprofundando nos clássicos. Mozart sempre foi o meu favorito, mas sempre havia espaço para Chopin, Beethoven e Liszt. Havia espaço para outros também, mas estes eram os mais frequentes.

Na música mais popular, a coisa era bem misturada. Assim, conviviam harmoniosamente Chico Buarque, Clara Nunes, Elis Regina, Ney Matogrosso, Elvis Presley, Frank Sinatra, The Beatles e, principalmente, The Rolling Stones. Outros artistas faziam participações especiais, mas estes eram os que mais frequentavam a nossa vitrola (que, para que os mais novos entendam, é um tipo de CD-player que não toca CD, toca LP). E assim fui formando o meu eclético gosto musical. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar.

Outra paixão gerada na infância foi o cinema. Para ajudar mamãe nessa tarefa, havia o vovô. Os dois ficavam ticando a lista dos filmes no jornal para sabermos quais filmes ainda faltavam ser assistidos. Íamos muito ao cinema, que na época era um programa barato (ainda não haviam gourmetizado o setor).

Assistíamos a tudo e é por isso que amo tanto cinema e assisto praticamente qualquer coisa – ainda que a definição de bizarrice tenha alcançado escalas absurdas e acabo me poupando de algumas coisas. A magia da sala escura e da tela grande ainda exerce um fascínio em mim. Mas ainda não é exatamente sobre isso que eu quero falar. Já chegaremos lá…

Juntando música e cinema, duas das artes que mais me encantam, devo confessar que adoro trilha sonora de filme. Além do prazer da música, ela me traz a lembrança das cenas ou das emoções do filme em questão. A trilha tem uma força extra, que vem da contextualização causada pela recordação da história e dos seus personagens. É impossível não me emocionar com a trilha de Cinema Paradiso, do Ennio Morricone: a história está toda ali. Ou com o vigor da trilha de Henrique V, do Simon Ratlle. Ou me divertir com as canções de O Diário de Bridget Jones ou The Wonders: o sonho não acabou.

Voltando às lembranças de infância; naquele tempo, nós nos divertíamos mais no cinema. A coisa era mais bagunçada e participativa. Na linguagem de hoje, era mais orgânica e colaborativa. Quando assistíamos a um musical (podia ser um desses desenhos da Disney cheios de cantoria), acompanhávamos com palmas o ritmo de cada música que era cantada na tela. Havia até certa tristeza quando acabava. E daí vem a minha melhor lembrança: A Noviça Rebelde. Houve uma reapresentação do filme (o filme foi lançado um ano antes de eu nascer e estava sendo reapresentado em cópias novas) e mamãe resolveu nos levar para ver

– Isto é filme para se ver no cinema! – dizia ela pelo caminho.

E tinha razão. As imagens impressionam em tela grande e há muitas músicas para bater palmas. Que diversão! Quem não queria ter uma babá como a irmã Maria? E cantar o Dó-ré-mi? E ter um teatro de marionetes em casa para contar (ou cantar) a história do pastor de ovelhas? E fazer “escadinha” com os irmãos para dizer boa noite? E se emocionar com Edelweiss?

Mas a minha preferida sempre foi My Favorites Things. Por mais que a gente não entenda a graça de gostar de chaleiras de cobre brilhando ou de luvas de lã quentinhas (ainda mais nesse calor do Rio de Janeiro), sempre tinha em mente que se um cachorro me mordesse, uma abelha me picasse ou se simplesmente eu estivesse triste, bastava pensar nas minhas coisas favoritas. Podiam ser gotas de chuva nas rosas, bigodes de gatos, picolé de limão, bala Juquinha, jogar bola, passear, beijo de namorada ou o filme preferido.

Das artes, a junção dessas duas sempre me fez feliz. E quando não estou muito bem, recorro às minhas trilhas sonoras prediletas. Dependendo do problema, uma delas me deixará melhor. Pronto, passou. Música e cinema são duas das minhas coisas favoritas.

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