Deus não dá asa à minha cobra

Recentemente, uma menina da faculdade, depois de me ouvir por horas a fio, ler trilhões de mensagens trocadas por mim no whatsapp e também pedir minha opinião sobre assuntos dela; olhou pra mim atentamente, com sorriso nos lábios, e soltou essa intrigante frase: “Menina, você é a prova viva de que Deus não dá asa às cobras.”

Eu, curiosa, mas sem entender muito, perguntei o que ela queria dizer com essa frase. No que ela respondeu “Você não tem ideia do quanto iria longe se controlasse sua ansiedade e agressividade. Não deixa a sua forma de se expressar esconder seu potencial, não. Nem deixe a raiva desperdiçar o que você tem de melhor. Promete pra mim que vai estudar comunicação não agressiva. Se não for por você, que seja pelo mundo. Ele merece. Por favor.”

Dei um abraço nela e fiquei com o olho cheio d´água. Voltei pra casa pensando em tudo que ela me disse e fazendo uma retrospectiva mental de tudo, até dos meus gostos pessoais. E finalmente, entendi o porquê sempre torci praqueles participantes do Big Brother que eram taxados de loucos, inconsequentes, barraqueiros. (Inclusive, quando estou me sentindo pra baixo, assisto o discurso que o Bial fez pra Ana Paula Renault no youtube, as lágrimas escorrem, mas depois me sinto menos incompreendida.)

De repente, TUDO passou a fazer sentido.

Muitas vezes, eu estava certa. Sabia disso. As pessoas ao redor também sabiam, mas deixavam de me apoiar por causa da minha forma de me expressar, mesmo que no fundo concordassem comigo. Eu perdia a razão porque meu lado racional me virava as costas nos momentos que mais precisava de sua ajuda.

Poderia vencer todas as discussões que quisesse e sair sempre por cima se fosse mais movida a razão do que a emoção. Sempre tive potencial pra ser heroína, mas estava destinada a ser vilã. Afinal, potencial não garante nada, não é mesmo?

Desde criança sempre foi assim. Era uma criança extremamente observadora, captava aquilo que ninguém via. Enxergava a maldade e bondade dentro de cada um, em cada pormenor. Falava pouco, mas quando abria a boca despejava tudo que tinha acumulado e concluído, depois de dias de análise minuciosa, da forma mais honesta possível, sem amenizar um detalhe sequer.

Por isso, quebrava aquele lema adulto de que odiar criança é pecado. Pra mim, abriam uma exceção. Não se culpavam por me odiar apesar da minha pouca idade. Diziam que eu jogava a merda no ventilador. E quem ia querer ter um holofote infantil escancarando suas podridões aos olhos de todos?

Não pensem que me fazia de vítima não, pois também, nunca tive talento pra interpretar o papel de lobo em pele de cordeiro. Estava ocupada demais lidando com as consequências de ser um cordeiro em pele de lobo.

Por muito tempo permiti receber a alcunha de vilã. Passei tanto tempo carregando a fama que passei a me acostumar com ela. Me trazia um certo poder e segurança, até. Mesmo que no fundo me sentisse extremamente frágil e incompreendida.

Quando somos encaixados sem escapatória num traje que não nos pertence, o que fazer a não ser abraça-lo e aprender a extrair o que há de melhor nele? E foi o que fiz, por muito tempo. Não dizem que se está no inferno é pra abraçar o capeta? Então; iria abraça-lo também.

Da mesma forma que reconhecia a sombra nos outros, passei a enxergar minha própria sombra e amá-la também, pois ela me trazia milhares de vantagens sob os outros. Era divertido o quanto as pessoas temiam a mim, mesmo eu sendo apenas uma criança. Ao mesmo tempo que não me suportavam, tinham medo que eu as entregasse a qualquer momento. E assim me fiz ser respeitada. Pelos piores motivos, conquistei o respeito dos adultos.

Mas o que adiantava ser respeitada se não era amada? O que você prefere? Ser respeitada porque te temem ou ser respeitada porque te amam ou te admiram?

Essa pergunta martelava na minha cabeça durante toda minha infância. Até que decidi. Independente de qualquer coisa, ia provar que não era esse monstro que todos achavam, mesmo que isso me fizesse parecer menos forte aos olhos dos outros. Afinal, o poder e o ar de superioridade não compensavam o sentimento de injustiça que me corroía por dentro.

Não podia mais aceitar aquela farsa. Dentro de mim, sabia que não era má. Apenas queria buscar a verdade a qualquer custo. Só que minha busca incansável pela honestidade estava me custando muito caro.

Sabia que nunca seria uma heroína, mas também não era aquela vilã que estavam pintando. Ainda não sabia quem era, mas tinha certeza do que não era.

Cresci e passei a me calar. “Nossa. Como ela mudou. Nem parece aquela criança desbocada e antipática que conheci” era o comentário mais comum nas festas de família. Tinha me transformado em outra pessoa como forma de enterrar meu passado de vez. Engolia tudo que tinha vontade de falar, sorria por educação e concordava pra não desagradar. Virei aquilo que mais odiava; uma em cima do muro.
As pessoas passaram a gostar mais de mim, mas continuava infeliz. Porque sabia que na verdade não gostavam de mim, mas sim de uma farsa bem convincente. Aquela também não era eu.

Então quem era eu?

Diante disso, veio o vazio, a apatia, a depressão. A racionalidade realmente não se encaixava bem em mim. Não sabia como lidar com ela sem parecer uma mentira ambulante.

Alguns se sentem mais confortáveis com o silêncio e até conseguem contemplá-lo. Já comigo, o silêncio excessivo sempre teve um quê de crueldade e indiferença. Me fazia sentir presa e sufocada por dentro. Queria gritar, mas o lado racional que estava tentando trabalhar em mim me proibia.
Sentia saudade dos meus tempos de “vilania”, no qual era julgada de ser algo que não era, mas por outro lado, era mais livre, menos reprimida e acredite se quiser; uma pessoa bem melhor também.

A maioria tende a achar que xingar, brigar, ofender, odiar, é cruel e não percebem, que o silêncio fere muito mais que palavras agressivas. O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. Sentir ódio de alguém demonstra que você tem sentimentos por ela e que tem emoções envolvidas. Já a indiferença, é fria, seca, pobre, sem vida. Acho que por isso o silêncio sempre me soou mais doloroso do que a agressão.
Ainda estou tentando encontrar um equilíbrio entre o lado emocional e racional, aprendendo a medir melhor minhas atitudes e palavras sem perder a minha essência no meio do caminho. Continuo perdida. Mas de uma coisa tenho certeza; quero ser verdadeira comigo até o fim. Custe o que custar. Custe o que custar.

E você? Você prefere ser amada por ser uma farsa ou ser odiada por ser autêntica? Como você vai querer ser lembrado quando não estiver mais nesse mundo?

Quanto a mim, não tem jeito. Os heróis e heroínas que me perdoem, mas escolho a segunda opção.

Talvez eu seja mesmo a prova viva de que Deus não dá asa às cobras.

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