Eu sei, é apenas rock’n’roll, mas eu gosto

Foi mamãe (sempre ela) quem me influenciou a gostar de rock. Na verdade, ela me influenciou a gostar de música e de uma maneira bem eclética. Assim, conviviam harmoniosamente Chico Buarque, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, Frank Sinatra, Elvis Presley e The Rolling Stones.

Muitos outros frequentavam a nossa vitrola (sim, vitrola, já expliquei o que é numa crônica passada), mas estes eram os preferidões. Em relação ao rock, ela gostava de me contar as histórias da chegada dele no Brasil. Aí, deitava e rolava nos detalhes e me contava o quão transgressor foi aquele momento. Um dia, e eu devia ter uns doze anos, ela me chamou até a vitrola e colocou um disco para ouvirmos:

— Rock é não seguir regras, é soltar a alma, ouça esta menina.

A menina era a Janis Joplin e aquela voz que alternava agressividade e suavidade na mesma canção me conquistou de imediato.

— Uma pena ela ter morrido tão cedo. Um talento. – disse-me com a voz um pouco embargada.

Mamãe viria a fazer o mesmo comentário ao saber da morte da Amy Winehouse. Mas voltando ao rock, ela resolveu ampliar os meus conhecimentos no assunto. Aprofundou as minhas relações com o Elvis e com os Stones, e começou a diversificar mais a programação musical (não existia playlist naquela época). Começou por Little Richards, The Beatles e Rita Lee (com e sem os Mutantes).

Valorizava as diferenças entre eles e em que eles contribuíram para as novas gerações. Não demorou para que Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band e Babilônia entrassem para a minha lista de discos favoritos. A primeira vez que ela me fez ouvir Queen, fiquei me perguntando o que seria aquilo. Havia uma mistura de vigor, brincadeira e uma qualidade instrumental e vocal impressionantes.

Não conseguia acompanhar Bohemian Rhapsody e achava aquilo o máximo. Muitos outros vieram depois. Pink Floyd, Genesis e Led Zeppelin foram facilmente absorvidos. E apareceram Rush, Bread, Bob Dylan, AC/DC. Aos poucos, fui formando o meu gosto roqueiro e aumentando a minha lista de discos preferidos.

— Ouça de tudo, ouça de tudo! – ela me dizia.

Eu fui ouvindo de tudo. Foi com alegria que eu apresentei à minha mãe o som do The Police.

— Interessante. Eles misturam várias influências… – foi a primeira opinião dela sobre a banda.

Continuei trazendo “novidades” e ela sempre me incentivando. Com o bum (boom é para os fracos) do rock nacional nos anos 80, passamos a discutir sobre as várias vertentes das bandas nacionais.

— Elas refletem as diferenças regionais. Veja, há uma brincadeira carioca, uma anarquia paulistana, uma seriedade brasiliense, uma provocação nordestina e uma chatice que não reflete o que os gaúchos são. – dizia, referindo-se, na última opinião, aos Engenheiros do Hawaii.

Muitos mais discos entraram para a minha lista de favoritos e aí veio o primeiro Rock In Rio. A minha primeira reação foi “oba”, mas a segunda foi “pronto, ferrou”. Como eu conseguiria tempo e dinheiro para ir ao festival? Comecei a deslocar coisas para poder ficar livre na época e iniciei a minha poupança do rock.

Juntava tudo, qualquer moeda estava valendo. Mas comecei a ver que não chegaria ao valor suficiente para ir em todos os dias que eu queria (quatro, para ser preciso). Então, comecei a participar de todas as promoções possíveis. Ouvia rádio alucinadamente para pegar as promoções e assim que uma delas acontecia numa estação, trocava para outra para ver se conseguiria participar lá também. E assim, me tornei o rato das promoções.

E assim, ganhei ingressos para dois dias. Um deles era para um dia que eu já havia comprado. Parti para a operação troca-troca (o que naquela época era mais difícil, pois não haviam as redes sociais e os grupos de oferta de ingressos para show) e consegui trocá-lo por outro dia da minha lista. Tudo estava perfeito e perfeitos foram os shows que eu assisti. Chegava em casa e contava à minha mãe como tinha sido. Os seus olhos brilhavam.

Tomei gosto por shows com o Rock In Rio (antes, havia ido a um show do The Police no Maracanãzinho que merece um texto só para ele, pois a experiência variou entre o fantástico e o bizarro) e comecei a ir a todos que aconteciam no Rio de Janeiro. Acredite, naqueles tempos eles não eram tão comuns como são hoje.

Assim, vi Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Rita Lee, Paul McCartney, Simply Red, Simple Minds, The Cure, A-Ha, Rod Stewart e muitos outros. Mas o melhor show de todos foi quando The Rolling Stones veio pela primeira vez ao Brasil. Eu tinha dois ingressos para a área reservada (VIP é para os fracos) da pista e minha namorada e minha irmã estavam trabalhando no evento.

Não pensei duas vezes e convidei minha mãe para ir comigo. Ela que me iniciou nisto tudo. Ela, a maior fã brasileira dos Stones que eu conheço. Sim, ela seria a companhia ideal para aquele show. Chegamos cedo e nos posicionamos muito bem (como se fosse possível haver um lugar ruim na área reservada).

Rita Lee fez o show de abertura e nos divertimos muito. Quando estava para começar a apresentação dos ingleses, percebi que mamãe estava um pouco tensa. As luzes se apagaram, a galera vibrou e ela apertou a minha mão. Ouvimos os primeiros acordes de Satisfaction e o aperto na mão ficou mais forte. Mick Jagger entrou cantando e minha mãe deu um grito. Cheguei bem perto do seu ouvido e perguntei:

— E aí, gostou de vir?

— Muito. Mas te digo uma coisa: se eles tivessem vindo ao Brasil quando eu era jovem, você não teria nascido.

Curtimos o show que, é claro, foi fantástico. Na saída, cantamos com a multidão enquanto caminhamos em direção à nossa casa. Mamãe chegou eufórica e meu pai olhava-a com certo estranhamento. Para ele, havia sido uma loucura ela ter ido comigo.

Para ele, era coisa de jovem. Para ele, era só um show de rock, não era para provocar tanta alegria. Mas eram os Stones e era rock’n’roll. Ela passou uma semana cantando as músicas do show e provocando estranhamento no meu pai. Eu e minha irmã nos divertíamos com a cena, mas papai tentava seriamente entender. Ela tentou explicar:

— É rock.

— Mas só rock? – ele perguntou.

— É.

— Mas só?

— Eu sei, é apenas rock’n’roll, mas eu gosto. – respondeu cantando e encerrando o assunto.

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