Já fui poeta

Já fui poeta um dia. Já tive condições de reunir pelas palavras, ou, pelo menos, achava que tinha. Como era bom sonhar que podia distribuir flores verbais por ai! Cresci, entrei na faculdade e continuei, ou, pelo menos, tentei.

Sempre me inspirei no que achava que era amor para escrever meus versos. Lá na primeira cadeira da sala de aula, eu era/sou a sensível, a observadora e a atenta. Sempre sentia muito. Versava sobre meus amores platônicos. Meros rabiscos de uma adolescente tímida, que nunca mostrava seus textos a ninguém, exceto sua melhor amiga e quando tinha mais coragem ao professor de português.

Isso me lembrou de um e-mail que mandei a esse professor. Ele disse que havia sensibilidade e que podia ser uma nova Drummond! Eu, uma menina que tinha acabado de descobrir que entrara na faculdade pública, tendo tanto talento como Drummond! Era a época de transição de rede social, do orkut para o facebook, postei o poema enviado nesta última. Recebi apenas um like, da minha irmã caçula. Apaguei logo depois me sentindo fracassada. “Quem se importa com poesia?”, pensei. E foquei-me nos estudos. Nenhuma novidade para a pessoa que sempre fui.

Cinco anos de faculdade. Mais tempo para descobrir o que era se apaixonar. E lembrando das palavras ditas pelo meu professor, continuava a achar que sabia escrever, tanto academicamente, quanto poeticamente. Afinal, eu poderia ser Drummond! Vejam mesmo estando na Universidade, acreditei que eu tinha chances. Sofria e escrevia. Logo depois, guardava, ficando até esquecido tudo aquilo que “poetizei”.

A realidade é dura. Veio como uma pancada que além de me machucar, me paralisou. No mestrado escutei: “Você não sabe escrever!”. Nossa, foi tão dolorido que ainda falo sobre isso. E preciso falar, pois ainda acredito nisso enquanto a escrevo esse texto.

Já fui uma das melhores alunas na escola. Tentei manter minha imagem de boa aluna na faculdade. Corria atrás, anotava e copiava tudo. Dava um jeito para ler todos os textos antes da prova. Não colava. Seguia todos os requisitos e passos que se tem para ser uma boa aluna, a famosa CDF.

A poesia ficou de lado durante algum período da graduação. Até que perdi meu cachorro e não conseguia não me expressar. Usei o tipo de texto que sempre considerei minha vocação. Depois, me apaixonei e obviamente sofri. Continuei poetizando com frequência, mas não achava meus escritos bons. Lia para minha psicóloga e mandava para alguns amigos. Ninguém mais.

Hoje me vejo sem talento. Incapaz de escrever belamente. Incapaz de escrever uma boa dissertação. O processo de crescimento me fez perder o poder que acreditava que tinha. E aos 24 anos preciso buscar uma nova forma de expressão, pois ainda tenho muitos sentimentos que transbordam vez ou outra.

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