Let It Be

Você se lembra de 1969, querida?

Foi a primeira vez que te vi, você estava linda, com flores nos cabelos e roupas coloridas, sentada numa toalha de mesa sobre o gramado no cume de uma colina, olhando o palco à distância com olhos sonhadores e um sorriso singelo.

Primeiro achei que você estivesse chapada, como a maioria ao redor de nós, mas percebi que não. O modo como você respondeu meu olhar, entorpecido por tua beleza, foi bastante sóbrio, e foi isso o que primeiro me chamou atenção em você. Uma garota que gostava de rock ‘n’ roll mas não gostava de drogas.

Foi a primeira vez na vida em que pensei em deixar de lado a erva, sabia? Não sei se você se lembra que era eu que sentei ao seu lado e comentei sobre os outros que dançavam na lama. Você, bastante sóbria, é claro, porque eu fedia a maconha, me mandou dar no pé. Eu me afastei contrariado, comi alguma coisa, bebi um pouco, reencontrei meus amigos, fumei e fui tomar um banho no rio que corria ali perto. À noite foi mágico.

Eu te reencontrei numa clareira entre as pessoas, na companhia de outras duas garotas. Elas até eram mais bonitas que você, mas, como antes, só você estava sóbria. Foi mágico porque no exato momento em que te vi pela segunda vez, Janis Joplin cantava just try a litle bit harder com aquela voz rouca e cheia de paixão que ela tinha. E eu fui e tentei outra vez.

Não lembro bem como saí do festival no mesmo carro que você e suas amigas, mas um ano depois eu entrava com você na loja de discos da minha cidade para comprar o Let It Be dos Beatles. Ainda não tinha me declarado, mas eu já te amava desde Woodstock. Às vezes eu acho que você percebia isso, mas não parecia te incomodar.

Você era considerada estranha e cafona por não gostar de se drogar, eu sempre evitava estar chapado quando estava perto de você. Eu lembro como meu pai me odiava por causa das drogas, era vergonhoso. Não que ele fosse algum religioso, meu pai era um biólogo darwinista demais para essas coisas, mas tinha uma capacidade de me desprezar por tudo aquilo que eu demonstrava considerar “eu”.

Ele odiava que eu não usasse gravata, como o Mick Jagger. Odiava que eu usasse roupas coloridas, que odiasse o governo, que odiasse ser mais uma engrenagem nessa máquina assassina e exploradora do mundo. Eu até rio desse tempo, me tornei um empresário capitalista exatamente como meu pai queria, mas eu tinha dezessete anos naquela época.

Era disso mesmo que eu reclamava com você durante uma pausa entre uma e outra música num show do Led Zeppelin em 1971. Era a primeira vez que saíamos juntos e eu só falava em largar isso tudo, ir para a faculdade que meu pai queria que eu fosse, procurar um emprego melhor, e deixar de ser quem eu era, porque meu pai não queria que eu fosse quem eu era. Você deu de ombros, olhando para o palco vazio, e disse “Deixe ser”. Let it be.

Eu fiquei atônito e não consegui deixar de te admirar com um olhar fixo e encantado; você estava dizendo que era eu que não me deixava ser quem eu era e não meu pai, eu só colocava a culpa nele porque ele não gostava das drogas e queria um bom futuro para o único filho.

É claro que você não chegou a dizer isso tudo, mas era isso o que eu precisava perceber. Eu passei a te amar muito mais naquele momento. Eu ainda te olhava quando o Led voltou ao palco, tocaram Stairway to Heaven. Ficamos hipnotizados durante os dedilhados de Jimmi Page e encantados com a poesia que Robert Plant conseguia colocar na voz.

Lembro-me perfeitamente, e espero que nunca me esqueça, que quando o Bonzo martelava aquela bateria preanunciando o solo de guitarra, eu me enchi de excitação, como uma bobina, e fui atraído pelo magnetismo que emanava de você. Não sei como chegamos a isso, mas enquanto Jimmi Page fazia sua guitarra gritar, eu estava te beijando.

Nosso casamento quebrou a tríade dos anos 70; só amor e rock n roll, sem drogas. Àquela altura eu já tinha deixado de lado totalmente a erva, e dava graças a Deus por não ter passado dela. Foi um ano depois de eu ter aberto nossa primeira lojinha de discos, lembra?

Eu já tinha 21 anos e meu pai ainda pegava no meu pé por eu não ter feito faculdade, mas admitia que eu tinha talento para vendas. Em 1976 nasceu nossa querida filha e então éramos oficialmente adultos, mas você nunca abandonou as flores no cabelo e as roupas coloridas e o rock ‘n’ roll.

E agora estou aqui, cinquenta anos depois de ter te visto no alto dessa mesma colina. Mas desta vez não temos mais Janis Joplin, as drogas são mesmo ruins, e eu também tive meus motivos para pegar no pé dos nossos filhos e filhas. Estamos aqui, ainda posso te ver sentada nessa colina, linda e deslumbrante, aquele mesmo olhar sonhador por baixo dessas sobrancelhas perfeitas.

É supreendente, quando vejo com mais maturidade o garoto que eu era na época, como eu me encantei por você, como me rendi e te amei com tanta simplicidade e tanta verdade. Talvez eu tenha visto nesse dia que você era a força que eu precisava para me tornar um homem de verdade, talvez eu não estivesse aqui sem você, querida.

Não podia escolher para teu epitáfio palavras melhores; espero, na vida de velho que me resta, nunca esquecer o tom da tua voz, naquela noite de 1971, quando você mudou minha vida simplesmente dizendo essas palavras de sabedoria: let it be.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook