Loja de discos: uma esperança

É uma merda escrever sobre algo tão apaixonante como o rock; não porque eu deteste (eu amo), mas porque o leque de abordagens é quase infinito. Definir um tema específico é quase cometer uma injustiça com os outros que também seriam interessantes de abordar.

Há uma coisa na minha vida que é mais irritante do falar sobre temas que, de certa forma, domino; é não ter uma vitrola. Talvez um dos meus sonhos de consumo seja ter uma, para que eu possa, um dia, ouvir discos de rock. O problema é que, além de não ter uma vitrola, não tenho sequer um LP.

Trago sempre na memória uma das vezes em que fui à Darklands, uma loja de discos que costumo frequentar na Saens Peña; me lembro de ter entrado na loja, provavelmente em uma sexta-feira depois do trabalho, e vi no cantinho de uma prateleira um disco do Emerson, Lake & Palmer, um dos maiores trios de rock progressivo que já existiu.

Era usado e custava vinte reais; ótimo preço se considerarmos que se tratava de “Pictures at na Exhibition”, um dos melhores junto a “Tarkus” e “Trilogy”. Quer dizer, um disco fantástico. Não comprei, mas voltei à loja umas duas semanas depois. Para minha surpresa, o LP estava no mesmo lugar, do mesmo jeito que me lembrava. Fiquei bem triste por não ter a bendita da vitrola…

Não tenho o hábito de comprar vinil, mas posso dizer que sou um consumidor voraz e assíduo da tal indústria fonográfica. Gosto muito do Spotify por sua praticidade e pela infinidade de discografias disponíveis, mas sou da época de ir às Lojas Americanas e procurar por CDs e DVDs de minhas bandas favoritas. Meu primeiro CD de rock, “Powerslave” (Iron Maiden), foi comprado lá, num passeio despretensioso pela loja.

Depois de alguns anos, passei a frequentar lojas especializadas em discos de rock, como a já citada Darklands, a Headbanger e a Sheherazade, todas localizadas no segundo andar da galeria 346, na rua Conde de Bonfim. Desde então, ir às lojas de discos é quase rotina pra mim; não consigo conceber alguém que gosta de rock e não frequenta tais lojas.

É claro que o mundo passa por mudanças, bem como as formas e relações de consumo. Mas é inegável que há um quê de magia ao se atravessar a porta dessas lojas. Sinto que é o meu universo, lugar ao qual me sinto pertencente.

Parte da história do rock mundial é construída em razão desse aspecto; muitos fãs do gênero, como Kid Vinil e Charles Gavin (ex-Titãs), mantêm intactas as suas coleções de CDs, LPs e DVDs; alguns ainda guardam fitas cassetes. Contribuir com o trabalho dos artistas dessa forma é diferente; não é mecânico como fazer um download ou selecionar uma playlist.

Consumir esses suportes fonográficos está para além de ouvir simplesmente a música. É divertido e desafiador decifrar as capas de álbuns renomados do rock. Neste ano, visitei uma dessas lojas mencionadas e peguei na mão o CD “Machine Messiah”, mais recente obra do Sepultura. É de uma riqueza de detalhes tremenda.

Fico imaginando como seria o LP, ainda maior. Facilmente viraria quadro pras paredes do meu quarto. Ir à loja de discos requer paciência para garimpar e, principalmente, que se tenha atenção com o que às pessoas a sua volta estão dizendo, mesmo que não sejam muitas (apesar de notarmos uma volta à compra de vinis, o suporte ainda é um item de nicho, ou seja, há um público específico e restrito que realiza esse consumo).

É num bate-papo com um dono de loja que ficamos sabendo de discos excelentes, que ouvimos sobre experiências marcantes e que reformulamos nosso ponto de vista. O Spotify nos isola dos outros; ter um LP à mão e perguntar a opinião do vendedor a respeito é enriquecedor. Além disso, há obras-primas do rock e do metal que não chegam às plataformas virtuais, sendo possível obtê-las apenas em mídias físicas. Às vezes, a praticidade nos priva de reconhecer corretamente o trabalho dos artistas de que gostamos.

Não tenho LPs; tenho poucos CDs e uma coleção incipiente e em crescimento de DVDs; é no que gasto mais. É provável que eu nunca pare de comprá-los, pois há um viés meio fetichista que caracteriza colecionadores, sejam eles de miniaturas ou de LPs.

Ter o produto é mais importante do que simplesmente ouvi-lo, visto que ao longo dos anos a indústria foi o que tornou possível nosso conhecimento sobre o que se tocava em cada lugar do mundo. Às vezes vou à loja mesmo sem um tostão na carteira. Pra mim, basta contemplar as capas dos “bolachões”; é bem diferente ter às mãos o “Somewhere in time” em LP do que simplesmente visualizar aquela imagenzinha pequena que compõe a discografia do streaming.

Que fique claro que não sou contra downloads, streaming e afins. Eu só quero ressaltar a importância desses espaços de venda, compra e troca de material fonográfico e como isso foi primordial na consolidação de um gênero como o rock. Antes de a Sub Pop lançar o “Nevermind”, talvez o Nirvana não fosse tão conhecido como passou a ser depois de seu petardo maior.

Ter um disco significa se debruçar sobre uma paixão, algo que infelizmente tem se perdido ao longo dos anos. Se você ama mesmo rock, vá a uma loja. Se nunca foi, garanto que será uma experiência diferente, no mínimo. Já pensou ter em suas mãos o CD favorito de sua banda favorita? Felizmente, isso ainda é possível. Aproveite!


Por Thiago Marques
exclusivamente para Versificados

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