Medo do Escuro

A vibração atravessava o ar até seus ouvidos e subia pelas pernas, causando um comichão engraçado na planta dos pés. No início um aumento de peso, como quando fora para São Paulo e o avião aumentara a altitude, depois se acostumou. Observou o grande espelho atrás de si, a câmera pequena escondida dentro de um semiglobo preto num ângulo do teto, a grade sacolejante diante de seus olhos atrás da qual passavam os diferentes pisos do edifício. Não devia ter muito mais que um metro quadrado, devia ser um incômodo dividir aquele espaço com outros moradores, sacolas de supermercado, bebês fedendo a bosta fresca. Ficou feliz pelo pequeno quarto em que morava na casa dos pais; uma daquelas antigas, com azulejos de cor sem graça, espaçosas, do tempo em que havia menos gente no mundo. Por cima de uma placa de acrílico branco no teto, uma lâmpada fluorescente piscava, ameaçando apagar. Mais engraçado que o comichão nas pernas, só o velho receio de cair na escuridão. Ele mal tinha consciência desse receio, mas era a razão pela qual seus olhos vez ou outra subiam para o teto que piscava.

Houve um último sacolejo, um estalo um pouco assustador, e a grade, que o fez pensar na palavra retrô assim que a viu, se recolheu para o canto e ele saiu empurrando a porta cinzenta que surgira por trás da grade.

Ali sim ele percebeu o receio. Deparava-se com um longo corredor escuro, totalmente imerso no escuro. A despeito de algumas linhas brancas de luz que saíam pelas frestas das portas e de um largo facho de luz solar que entrava por uma janela basculante, estava diante de uma caminhada no escuro. E se houvesse algo em que tropeçar? E se houvesse uma lixeira no meio do corredor? E se houvesse um extintor caído apenas esperando que algum idiota pisasse nele e caísse de cabeça? E se…

Não tinha medo do escuro, não tinha mais. Repetia isso na própria cabeça, e era até verdade. Não era mais um garoto de cinco anos, era já um homem de vinte e cinco. Era mesmo? Dos dezoito para os vinte e cinco havia tempo o bastante para se tornar homem? Trabalhava, se formara, até fizera um filho nesse tempo. Mas coisas assim, como o receio do escuro, e coisas mais pungentes, viviam voltando daquele vale por que passara e a que chamava de “sombrio tempo da imaturidade”. Sim, ele dizia desse jeito, dramaticamente.

Não tinha mais medo do escuro, e talvez quando criança nem chegara a ter medo do escuro. Temia sim o que podia haver dentro do escuro. E naquela época sua preocupação não eram extintores de incêndio negligenciados no meio do caminho. Vira um filme, uma vez, em que um palhaço assassinava crianças. Vira outro em que um ser sombrio se escondia nas trevas esperando para beber o sangue de jovens moças. Temia essas criaturas e outras, mesmo que sua mãe dissesse que não eram reais. Temia o que não via. Temia o que não sabia que podia encontrar no escuro.

Mas agora ele sabia. Atravessaria esse corredor até o número 708, talvez tivessem instalado um sensor de presença. Não haveria nenhum exintor no caminho, o zelador era competente. Bateria na porta, sentindo-se apreensivo como quando a luz do elevador começara a piscar. Sentiria as mãos suando como na primeira vez em que batera à porta dela para leva-la para sair, mas não pelo mesmo motivo, ou talvez sim, quem entende o que se passa por dentro da gente? Ouviria a televisão sendo desligada, uma voz infantil animada, e uma voz feminina dizendo amargamente1: “é aquele traste do teu pai”. Ela abriria a porta vestindo um camisão com a cara de um político estampada e os cabelos desarrumados recém-amarrados no alto da cabeça por um elástico ou por uma caneta, qualquer coisa, e ele interpretaria, dolorosamente, esse gesto como alguma preocupação com a imagem que ela passaria a ele. Ela o olharia de alto a baixo por um longo segundo e lhe daria um “bom dia” que era pra ser “boa tarde”, porque ela estará preparando o almoço dela e da criança desde as onze e não terá percebido que o relógio já terá cruzado o doze. O menino o olharia tímido por trás do sofá, cheio de vontade de abraçar o pai, mas contido por uma repreensão da mãe. Ele teria vontade de dizer “não acredite no que ela diz, eu sou um cara legal, ela que nunca me entendeu”, mas apenas devolveria o olhar para ela, que esperava com pose de apressada pelo que ele teria a dizer, mesmo sabendo que era o fim de semana em que devia ficar com o menino. Ele diria “eu trouxe a pensão e botei mais cinquenta reais pra ajudar com os remédios”, ela agradeceria por educação, expressando toda a raiva e mais um pouco do que sentia realmente. Ela interpretaria nos olhos dele o pedido para levar o menino ao cinema ou àquele parque de diversões pobre que tinha perto da casa dele, e nesse momento inventaria que a dor de barriga voltara, que suspeitava que ele tinha alguma intolerância, talvez a lactose, e por isso ela tinha que cuidar dele. Ele concordaria contrariado, sabendo que ela mentia, porque a vira mentir por seis anos, entregaria o envelope com o cheque e ela fecharia a porta dizendo à mesinha de centro o mesmo “passar bem, manda um beijo pra tua mãe” de todas as vezes.

Ele sabia o que o escuro lhe traria, mas aos cinco anos não. Temia fantasmas, vampiros, temia porque não sabia que haveria lá, mas agora temia o que conhecia, e esse medo era bem pior. Tinha medo de ela inventar alguma medida cautelar para impedi-lo legalmente de ver o filho; tinha medo de ela botar no apartamento algum outro homem, dez anos mais velho que ele, que ensinasse ao menino como fumar ou a procurar pornografia na internet quando ela não estivesse olhando; tinha medo de ele crescer acreditando nas mentiras, já velho demais para se lembrar de como era realmente o pai, sem ninguém para contar os sacrifícios que fizera, os sonhos de que abrira mão, o trabalho desprezível que tinha que suportar por ele; tinha medo de ele fazer dezoito anos e pedir na justiça que ele mantivesse a pensão e depois disso processa-lo por ser um pai ausente. Tinha medo do que era real, do que sabia que havia no escuro.

E, Deus sabia, como sentia falta dos fantasmas!

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