O que eu deixei de ser quando cresci

Ser criança era, acima de tudo, ser livre. Sem dúvida, ser livre significava respeitar regras e ter muitos limites, mas a verdade é que o limite que eu queria ultrapassar era ficar mais tempo no banho, ou assistir televisão até mais tarde, ou não dormir pra ter mais tempo de brincar.

Ser livre era sinônimo de ser totalmente honesto. Criança tem a desculpa perfeita para falar o que quiser, como quiser, para quem quiser. Fala o que pensa e o que sente, sem perder tempo ponderando o quanto isso a torna vulnerável, o quanto — mais tarde ela vai entender — queremos desesperadamente estar seguros. Ainda não passamos por muitas coisas, as decepções ainda não nos fizeram criar mecanismos de defesa que eventualmente alguém pode fazer ruir.

É simples, sabe? Não se pensa muito no passado nem no futuro, é fase que mais autenticamente se vive o presente. A gente é quem a gente é, sem vírgulas, pontos e entrelinhas. E ri e chora mais. E dança sem pensar se está feio. Não se julga. É seguro de si.

Talvez esse quadro seja idealizado. Um pouco ou muito, não importa. Quando penso na infância, em uma época na qual a rotina era uma viagem para São Pedro da Aldeia em janeiro, penso em ir pra casa de uma amiga e brincar com os carrinhos do irmão dela, colar adesivos na janela, ralar o joelho e tirar a casquinha, bater com a cabeça na pilastra do prédio depois de ter uma ideia brilhantemente idiota, dançar Spice Girls no play da casa da minha prima sem entender nada da letra, ouvir Mamonas Assassinas e achar o máximo, fugir da bola em um jogo de queimado com uma habilidade digna de nota, fazer coreografias que ninguém conseguia imitar (mas todo mundo tentava, era a regra).

Eu me lembro de entrar numa loja de roupa e ficar entediada, então entrar no meu mundo onde eu era vendedora e tudo ficava bem. Lembro de falar tudo na cara dura, de roubar os adesivos do álbum da minha prima e colar no meu, entrar na loja da Mattel e querer tudo, de comer os pés e as mãos das Barbies e não me policiar tanto — quase nada — antes de fazer ou dizer algo que eu queria.

Não sei quando as coisas começaram a mudar, quando comecei a ficar com medo e insegura, quando comecei a sentir que não era o bastante e que precisava agradar a todos. O que eu deixei de ser quando cresci é exatamente o que tento quase exaustivamente reconquistar: a liberdade de ser eu mesma no presente, com defeitos e tudo.

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