O que você não quer ser quando crescer

Sempre é muito comum, quando se é criança, ouvir perguntas e mais perguntas sobre o que você quer ser quando crescer. Geralmente, esse questionamento nos é cobrado com uma expectativa: “qual será sua profissão?”. Com o tempo, isso vai ficando mais sério e o que era apenas uma simples questão, passa a ser carregada de pressão: “você precisa ser alguma coisa”!

Milhões de pessoas no mundo encontram dificuldade para lidar com esse tipo de situação. Cada vez mais cedo esperam algo dos jovens e não pode ser qualquer coisa. Como a Sociologia bem nos indica, você tem centenas de escolhas, mas sempre há padrões a seguir. E quando a sociedade (família, escola, religião, etc.) julga que determinado modelo não é bom o suficiente, os problemas aparecem.

A verdade é que, em um mundo onde as relações de oferta e procura são norteadas pelo dinheiro, torna-se essencial que as atividades produtivas e criativas garantam o acesso à moeda. E essa conjuntura basicamente regula as preocupações sobre o que se deve ser na vida adulta, assim como as cobranças relacionadas a esse contexto.

Justamente por isso, com raríssimas ressalvas, nunca há uma valorização de respostas singulares como: “Quando crescer eu quero ser honesto”, “Quero ser justo”, “Quero ajudar o próximo”. Enquanto se é criança, parece até aceitável e bonito ouvir isso, mas se for um jovem entre os quinze e dezoito anos, provavelmente as réplicas serão: “Quem vai pagar suas contas?”, “Quanto vão te pagar por isso?” ou “Você vai viver de sol?”.

Logicamente, não fujamos da realidade, seguir uma profissão ou exercer uma prática baseada nas melhores habilidades de cada um, é primordial para a vida em sociedade e até mesmo para nossa saúde mental e física.

Entretanto, a cada oportunidade que deixamos de valorizar demonstrações positivas como as relatadas anteriormente, podemos transmitir uma imagem anêmica e errônea do que se espera de um cidadão, solidificando a ideia de que o dinheiro está acima de tudo.

As consequências serão severas, perpassando por grandes frustrações individuais ou até mesmo ações inescrupulosas para se obter riqueza a qualquer custo. E esses exemplos, nós já temos muitos.

Não adianta procurar culpados em imprensa, sistemas educacionais ou qualquer outra instituição, se todos eles são compostos pelos seres humanos e somente nós somos capazes de mudar esse quadro. Se riqueza e criminalidade como objetivo de vida ainda ocupam muito espaço no noticiário, é porque há expectadores.

Talvez seja importante começar a questionar o que as crianças não querem ser quando adultas. Isso pode nos garantir um panorama interessante sobre nossos pequeninos e a nossa época. Se as respostas continuarem no campo das profissões ao invés de “Não quero ser corrupto”, “Não quero ser negligente socialmente” ou proposições parecidas, nós, adultos, estamos errando em algo.

Se todos, sem exceção, desenvolvem o papel de educadores e, consequentemente, de contribuir para a formação de cidadãos, é nosso dever valorizar outros aspectos que não somente os profissionais e materiais, fornecendo novas perspectivas, principalmente em um mundo que as metanarrativas falharam e tem se revelado cada vez mais injusto e desigual. E você? O que não queria ser quando adulto?

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