O Tempo

“Eu vos asseguro que os segundos agora são fortemente e solenemente acentuados e cada um saltando do pêndulo diz: “Eu sou a Vida, a insuportável, a implacável Vida.”
— Baudelaire, O quarto duplo

Certa, vez ouvi minha orientadora da graduação dizer algo, que por algum motivo não saiu mais da minha cabeça “com a idade, passamos a perceber a precariedade da vida”. Me lembro que quando criança eu me sentia capaz de ser qualquer coisa que eu quisesse, poderia casar, poderia ser médica, não havia preocupações profundas. Eu simplesmente não me preocupava com o tempo… na infância a percepção do tempo é o infinito… sempre haverá tempo para tudo.

Quando somos crianças, vivenciamos como em nenhum outro momento da vida, cada experiência. Vivenciamos cada instante de forma plena. Tudo poder muito intenso… o cheiro e o sabor de uma comida que gostávamos, a alegria por coisas simples, a surpresa em conhecer lugares diferentes, o carinho de alguém que pudesse nos fazer sentir seguros. Os medos e as incertezas também poderiam ser intensos, mas tudo era acompanhado de uma certa curiosidade quase mágica de conhecer mais e mais coisas novas.

Na infância temos tempo de viver. Cada dia, mesmo os dias que eram marcados por um tédio, como em um dia chuvoso em que não se pode brincar fora de casa, poderíamos descobrir algo novo, inventar algo novo. A infância é isso… é um momento da vida, temperado pelo “novo”. Me lembro de uma coisa boba que eu fazia quando era criança.

Sempre que eu estava em lugar diferente, e se estivesse em um momento feliz, eu passava a mão em algum objeto, ou uma parede, ou em qualquer coisa que tivesse naquele lugar. É como se através do tato, do contato com algo concreto desse lugar, eu pudesse eternizar na minha memória aquele momento.

Com o passar dos anos, todo aquele tempo tão disponível que tínhamos simplesmente para viver, vai sendo preenchido pelas tão terríveis responsabilidades. São as responsabilidades, sejam elas a escola, a universidade ou o trabalho é que dão sentido a nossa vida (pelo menos é isso que nos dizem). O tempo que na percepção de uma criança tem proporções enormes, vai se tornando cada vez mais escasso. Você precisa estudar, pois breve chegará o vestibular. Na universidade, tudo que você precisa é correr e estudar. Em breve você precisará se casar…

E um dos maiores choques na vida adulta, é perceber que não… você não poderá ser tudo aquilo que quiser. Você não terá tempo, para realizar todos os seus sonhos. A vida de repente passa tão depressa, fazemos tantas coisas, buscamos tantas coisas, e no fim nos perguntamos qual o sentido dessa corrida, rumo a uma linha de chegada, que é imprevisível.

Mas se com o passar da infância perdemos o tempo que tínhamos para viver e sonhar, ganhamos o poder da escolha. A cada dia que em que acordamos, temos uma nova oportunidade, seja para ser feliz com o que temos, para amar alguém ou até mesmo para sonhar. É isso.

As responsabilidades podem até nos ser impostas, mas temos ainda o poder de escolher. Aquele pensamento clichê de que não se pode mudar o passado, mas se pode recomeçar, é válido. Fica aqui o link de uma música que me inspira quando penso no tempo, Oração ao tempo, Maria Gadú.


Por Camila Souza
exclusivamente para Versificados

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