Revista | Sou um fofoqueiro

Sou um fofoqueiro, sempre fui. Desde criança. Sou uma antena, uma esponja. Ando pela rua colecionando histórias, frases, imagens, olhares, gestos. A vida é cheia de roteiros, não é preciso inventá-los. Junto tudo e produzo um texto. Colho as histórias alheias para contá-las como se fosse ficção. Um fofoqueiro que finge não ser.

Comecei escrevendo crônicas. Elas sempre me divertem. Aquele olhar comentado sobre a vida é irresistível. Mas, um dia, experimentei o conto. No conto, senti uma sensação diferente: os personagens conduziam a minha escrita. Meus personagens mandam no texto. Vivo cada um deles e me emociono com as suas emoções. Na crônica, o narrador conduz o que está sendo dito. No conto, o narrador só narra. Os personagens determinam o que querem fazer. Eu os vejo em ação. Vejo seus gestos, ouço as suas falas, sinto os seus cheiros. Alguns chegam a me encarar quando não gostam de uma ideia minha:

— Qualé? Eu nunca faria isto!

Olho bem para a situação e concordo com ele. E fico vendo-o tomar outro rumo na história. Esta autonomia dos personagens me encanta no conto. E este encanto me fez experimentar o romance. Uma delícia. Mas uma delícia que demora demais para chegar à conclusão. Gosto de escrever romances, mas eles me exigem demais. Muito tempo, muita história, muita coisa para fazer sentido. Há que se ter uma vida muito organizada para escrever bons romances. A minha ainda não está nessa organização toda.

Um dia, resolvi tentar contar uma história com pouquíssimas palavras. Assim, fui experimentando os microcontos. Uma delícia! Mas uma delícia com pouco envolvimento, pouca profundidade dos personagens. Aí, resolvi escrever minicontos. Meia página, no máximo uma. O suficiente, porém, para caracterizar os personagens. O fofoqueiro pode, com isso, explorar o seu vasto repertório de cenas coletadas no dia a dia.

Mais que isto, com os minicontos eu pude experimentar a troca com os leitores. Há informação suficiente para que os leitores torçam para os personagens. Comemoram se o final é feliz, ficam chateados se não termina bem, me escrevem para dizer como deveria ter seguido a história. O miniconto é um formato encantador. Rápido, prático, mas com conteúdo. E, em pouco tempo, eu vivo uma vida que não é minha. Gargalho, choro, seduzo, sou seduzido, fico com raiva, sou sarcástico, sinto diferente emoções. E tudo isto em poucos parágrafos.

O miniconto me faz ficar preso no que é essencial no texto. Não há espaço para enrolação. Não há frase sobrando, não há palavra em excesso. Bons diálogos se destacam com muito mais facilidade, pois não estão ali para estender a conversa, mas porque são primordiais na história. Simples, curto, direto. Direto no coração do leitor. Direto. Como aquelas fofocas boas que já chegam aos nossos ouvidos com nomes e detalhes.

Para conhecer os meus minicontos: minicontosdeamor.wordpress.com
Para conhecer as minhas crônicas: depaiparafilhas.wordpress.com

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