3%, a primeira série brasileira lançada pela Netflix

Quando soube que a Netflix receberia sua primeira série brasileira, fiquei super feliz por vários motivos. Em primeiro lugar, senti orgulho por ter uma série feita no meu país, com elenco, direção e roteiro nacional, no catálogo da Netflix.

Em segundo lugar, meu lado sonhadora renasceu do vale das sombras fazendo meus olhos brilharem e meu coração se encher de esperança com a possibilidade de um dia ter uma série criada por mim ao lado de produções como Orange is The New Black, Sense8, Stranger Things, Dexter, Lost (Ai meu deus!), dentre outras.

Gostando ou não, precisamos reconhecer o valor que 3% tem para nós brasileiros. Por isso que não consigo entender o fato de muita gente se recusar a ver justamente por ser uma série brasileira, enquanto os gringos estão elogiando-a.

3%, a primeira série brasileira lançada pela Netflix

A série foi mais criticada por aqui do que lá fora. A causa dessa ojeriza pelo produto nacional seria a mesma que explica a aversão por novelas e minisséries globais? É a velha história do “fruto do vizinho é sempre mais verde”? Alguns preconceitos sempre existirão. Com a arte nacional é só um deles, infelizmente.

Eu realmente amei a série, mas mesmo que odiasse me sentiria muito realizada e orgulhosa por ser uma produção do meu país. Quanto mais chance tivermos de mostrar nosso trabalho pro mundo e expandi-lo para que pessoas de outros países o conheçam, melhor para todos nós. Todos saímos ganhando.

Dessa forma, é inegável o quanto 3% está abrindo portas para roteiristas, atores e diretores brasileiros. É só pensar no alcance que a Netflix tem, na quantidade de gente que é atingida por ela, todos os dias. A netflix é o Maralto de todos os apaixonados pelo universo das séries e filmes.

Com uma pegada de Jogos Vorazes, Divergente e até de Big Brother, 3% conta a história de jovens de 20 anos que precisam passar por um processo cheio de provas cruéis e absurdas para estarem aptos a morar no Maralto, um lugar completamente diferente do continente pobre no qual vivem. Essa é única esperança de conseguirem ter condições de vida melhor e viverem com dignidade.

3%, a primeira série brasileira lançada pela Netflix

Porém, eles precisam “merecer” passar para o outro lado provando que estão dispostos a tudo pelo Maralto. Diante disso, aqueles que entram bem-intencionados vão se perdendo ao longo das provas e mostrando quem são de verdade. Afinal, em momentos de provação que revelamos o que somos capazes de fazer para atingir nossos objetivos.

Assistindo algumas etapas do processo, não tive como não fazer um paralelo com as provas de resistência do Big Brother. Sem contar as provas da comida do bbb, nas quais os participantes perdedores só têm o direito de comer arroz, feijão e goiabada, enquanto o resto come de tudo.

Tudo isso é feito para eles se estressarem, perderem o autocontrole e partirem pra briga, pois assim o público saberá como cada um reage quando chega no seu limite. Quando perdemos a razão, deixamos nossos pensamentos mais desumanos virem à tona.

É o que acontece com o personagem Marco na série. Sua família inteira passou no processo deixando-o sozinho com uma empregada. Cresceu cheio de mimos, com a certeza de que seu lugar no Maralto já estava reservado. Porém o erro estava exatamente em superestimá-lo demais ao invés de prepara-lo para lidar com as piores circunstâncias.

Desde criança, escutou que fazia parte da elite, uma pequena parcela da população privilegiada que tinha mais direitos de ir pro Maralto por ser superior ao resto das pessoas que vivem no continente. Só que esqueceram de avisá-lo que para o mundo de lá, eles são tão inferiores quanto os outros candidatos. Portanto, precisam provar serem merecedores como todo mundo, sem direito a exclusividades.

No mesmo episódio que os candidatos criaram uma guerra regada a carnificina (olha o Jogos Vorazes brasileiro aí!), liderada pelo Marco, foi mostrado cenas do passado do personagem no qual ele oferecia mais comida para a empregada enquanto ela negava dizendo que era tudo dele, pois ele precisava comer mais do que ela.

Diante disso, nos faz pensar como é fácil não ser egoísta quando não vai faltar para nós. Quando tem comida, dinheiro, ou seja lá o que for sobrando, qualquer um é capaz de dividir o que tem com o outro. Só quando nos afeta de alguma maneira é que sabemos se somos solidários de verdade ou se só fingimos ser.

O Marco provou fazer parte do segundo grupo, infelizmente. Se deixou dominar pelo processo, ao contrário da Joana que se mostrou mais forte que todo o processo.

Mas isso faz dele um vilão ou apenas mostra o quanto ele foi fraco perante as circunstâncias? Ele foi apenas um joguete nas mãos do Ezequiel, mas até o próprio tem sua parcela de vítima, como é descoberto no último episódio. O verdadeiro vilão da história não é nenhum dos candidatos e nem os envolvidos no processo. É o próprio processo e a desigualdade social. E é exatamente nisso que a causa acredita. Falando nela, chegamos ao meu personagem preferido, o Rafael.

Rafael é daquele tipo de personagem que de início a maioria detesta (não me incluo nessa, porque esse é meu tipo preferido de personagem, então, sempre espero os roteiristas mostrarem o outro lado dele), mas aos poucos vai o entendendo melhor, conforme conhece suas motivações. Mesmo sendo debochado, irônico (o que também não vejo como algo ruim, mas sei que muita gente vê) e trapaceiro, é tão carismático e esperto que fica impossível não ir com a cara dele. Ele faz o que faz por uma causa maior, tem um objetivo altruísta por trás.

3%, a primeira série brasileira lançada pela Netflix

Como o próprio diz, ele sacrificou algumas pessoas (no sentido de fazê-las serem eliminadas do processo) para salvar milhares. Usou meios politicamente incorretos para isso? Sem dúvida! Roubou logo na primeira prova, tirou a chance de seu irmão caçula participar, ameaçou colocar a mãe como cúmplice caso ela o entregasse. Enfim, fez tudo isso sim, mas fez tudo pensando num bem maior. Ele prometeu não decepcionar a causa nessa segunda tentativa de fazer parte dos 3% e cumpriu a promessa.

Sem contar que a cada vez que esse personagem abria a boca dava vontade de rir do seu humor sarcástico. Ele consegue ser ácido de um jeito tão carismático que só poucos conseguem. Uma dentre as maravilhosas tiradas dele foi quando ele disse que foi o último a sair da prova do túnel que solta gás alucinógeno porque é uma pessoa muito profunda, cheia de coisas na cabeça. Não sei vocês, mas mesmo que as próximas temporadas me desapontem, vou continuar assistindo só para saber o que vai acontecer com o Rafael agora que ele conseguiu chegar finalmente no lado de lá.

Um dos pontos altos da temporada foi o quinto episódio no qual mostra quando o Ezequiel começou a comandar o processo, a relação com sua falecida esposa, a descoberta sobre o filho dela e a explicação sobre quem é aquele garoto que ele tanto visita no continente. Com certeza quem reclamou das atuações na série não viu esse episódio, pois Mel Fronckowiak conseguiu deixar sua marca na série participando de apenas um episódio (Será que ela volta por meio de flashbacks nas próximas temporadas?)

Ela conseguiu nos levar às lágrimas mesmo com poucas cenas, provando pra mídia brasileira que é muito mais do que apenas a atual namorada do Rodrigo Santoro ou ex-rebelde. Roubou o quinto episódio para si conseguindo até ofuscar um ator com o peso do João Miguel em alguns momentos.

3%, a primeira série brasileira lançada pela Netflix

Como todos os habitantes do Maralto foi manipulada a acreditar no processo, se aproveitaram de seu sonho de uma vida melhor para transformarem-na em uma mulher tão insensível e egoísta a ponto de ser capaz de abandonar o próprio filho em prol de sua própria “felicidade”, ou pelo menos o que ela acreditava ser sua felicidade. O que culminou na cena mais triste do episódio e consequentemente, no primeiro suicídio da história do Maralto.

Alguém pode julgá-la? Se você acha que sim, o que você faria se vivesse sob condições miseráveis, onde a fome e a violência tomasse conta e sua única chance de largar esse mundo marcado pela pobreza fosse se sujeitar a um processo no qual a vitória representa uma vida completamente diferente daquela de antes, só que em contrapartida você seria obrigado a deixar tudo que representa sua antiga vida pra trás, romper laços para sempre e perder sua essência no meio do caminho? Você se venderia ao sistema em troca de uma vida onde o dinheiro nunca mais fosse um problema?

Você só pode julgar se tiver plena convicção de que resistiria a tentação de morar em um mundo melhor, mas mesmo assim não aconselho os julgamentos pois nem todo mundo teria a força da Joana para não ceder à lavagem cerebral que o sistema exerce sobre todos. Por isso, como disse antes, o verdadeiro culpado não é o Ezequiel e nem os funcionários que trabalham no processo. Eles são apenas escravos do sistema mesmo que pensem que são os privilegiados. O que está por trás deles que deve ser combatido.

Não adianta vilãnizar quem aplica os testes ou quem comanda o processo quando estes cresceram no mesmo continente pobre que todos os candidatos, enfrentaram as mesmas condições sub-humanas e sofreram a mesma lavagem cerebral que o processo exige afim de saber quem realmente é “merecedor” do Maralto.

Eles ficam o tempo todo divididos entre se deixar levar pelos sentimentos ou resistir ao resquício de empatia que ainda os resta para se manter fiel ao processo. Assim, como o próprio Ezequiel, que luta constantemente contra o amor que sente pelo filho pobre de sua ex mulher para não trair as regras do sistema do qual foi levado a acreditar.

Afinal, ele já foi da causa no passado até ser seduzido pelo sonho do Maralto como a maioria, e chegar ao ponto de comandar aquilo que ele lutou contra um dia. Provando o quanto somos vulneráveis diante do poder do sistema.

Enquanto ainda acreditarmos na farsa do “Você é merecedor de seu próprio mérito”, a injustiça sempre nos usará como meros peões moldados pela sociedade.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook