Sozinho na Multidão

Acabei o banho e vesti a roupa branca. Coloquei o jantar na mesa e preparei o meu prato. Tender, fios de ovos, arroz à grega, farofa com salsinha e uma salada russa. Tudo comprado na padaria da esquina. E estava bom, bem bom.

Bebi um vinho branco, bem leve. Não sei se harmonizava com o prato, não entendo dessas coisas. Como e bebo o que gosto, e aquela combinação estava gostosa. Escovei os dentes, penteei os cabelos, peguei a garrafa de espumante (um rosé com cara boa e que estava com um preço bom no supermercado) e fui para a rua.

O caminho de Botafogo até Copacabana foi feito a pé. Caminhei junto de mais um monte de pessoas. Aquela alegria de último dia do ano. No dia seguinte, no ano seguinte, seria tudo diferente, melhor. É uma ideia meio estúpida, mas uma que dá esperança a uma vida medíocre. A minha nem era tão medíocre assim. Não, pensando bem, era sim. Então, eu deveria estar mais ajustado àquela alegria toda, mas não estava. Continuava achando uma idiotice pensar que a vida iria melhorar no dia seguinte.

As pessoas caminhavam em grupos. Muitas cantavam. Havia muita alegria no ar. Casais apaixonados se beijavam, amigos se abraçavam e famílias confraternizavam. Todos caminhando em direção à Copacabana. A chegada em Copa foi, como sempre, surpreendente. Muita gente, muita gente mesmo. E a cada minuto chegava muito mais. Os milhões estariam reunidos em pouco tempo. Um formigueiro.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite. A multidão aumentava e me espremia. Eu, sozinho. Olhava para os lados e não identificava os rostos. Via os sorrisos, mas não os olhares. O tempo passava e eu, ali, passando o tempo. E, quase sem que eu percebesse, a contagem dos segundos começou. Dez, nove — e eu ali, sozinho. Seis, cinco — e a multidão me cercando; eu, isolado. Três, dois, um. Os fogos começaram, as pessoas se abraçaram e garrafas foram abertas. Felicidade no mundo. Eu assistindo a tudo aquilo sem participar. Um solitário no meio da multidão. Abri a minha garrafa e comecei a beber o espumante. No gargalo mesmo. Tentei sorrir, mas ele não saiu. Continuei bebendo.

Alguém me abraçou, nunca descobri quem foi. Resolvi começar a sair dali. É, começar. Quando se está no meio de milhões de pessoas, sair não é uma coisa simples. Fui aos poucos. Achei que deveria parar de beber, e vi um mendigo tentando comemorar alguma coisa. Dei a minha garrafa para ele. Incrédulo, ele me desejou um monte de coisas boas e deu um sorriso sincero. Continuei andando e me dei conta de que não havia percebido qualquer som naquela comemoração. Do meu banho e jantar até a queima de fogos e meu caminhar de volta, silêncio. Silêncio total. Não ouvi os risos, os cantos, os gritos, os fogos. Nada. Silêncio.

Para mim, não havia um som qualquer. Silêncio. Foi então que entendi que o silêncio estava dentro de mim. Um silêncio enorme que se instalou desde que você saiu da minha vida, semanas antes. Silêncio.

Deixe seu comentário

* campos requeridos

Comentar via Facebook